THAT’s what I mean

Glenn Greenwald entrevistado por Alberto Dines. Caso Snowden, espionagem do Brasil, seus planos pós-Guardian. Uma das coisas mais legais que vi por aí nas últimas semanas. Vale a pena ver e rever.

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A tiny glimpse of North America

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So I got my North American christening a few days ago.

E, por incrível que pareça, gostei da coisa toda bem mais do que achava que fosse gostar. Algumas recorrências se fizeram notar por entre as coisas novas. A primeira delas (e, suponho, a mais feliz) foi fazer uma viagem cheia de amigos. Em Toronto, primeira porção de solo (frio) do sub-continente onde pus os pés, consegui – em 90 minutos – comprimir sorrisos, planos e expectativas com um casal de amigos que amo. A última vez que nos vimos foi há pouco menos de um ano, quando ainda moravam na Espanha. A vida dá mesmo voltas. E grandes, algumas vezes.

Na capital americana, depois de dias intensos de trocas de impressões, trabalho e contatos na academia (sempre a academia), me encontrei com outra amiga (que já não via há bem mais tempo) e foi ótimo re-conectar, re-conversar, trocar livros e ideias. E de novo, planos, memórias. Aproveitamos uma tarde ensolarada de domingo para andar pela Tidal Basin, dar um oi para os monumentos e memoriais.

Ao me deparar com Abraham Lincoln, Thomas Jefferson, Martin Luther King Jr., Roosevelt e soldados das guerras do Vietnã e da Coreia – além de figuras lúgubres da Grande Depressão – foi fácil perceber por que os americanos ainda têm em si muito viva a ideia de destino manifesto, presente na cabeça dos colonizadores ingleses antes que eles deixassem o Velho Mundo. Foi como sentir penetrar pela pele os valores que fundaram o país. Estão vivos e vão muito bem, obrigado. Foi um choque perceber a diferença de trato que esses gringos têm com a memória deles e, por outro lado, lembrar como lidamos com a nossa. Temos, sim, a memória curta. Lá eles empenham recursos para não se esquecer da sua, para manter a veia do desbravamento pungindo sempre. Por um instante, acho que consegui captar um pouco o porquê de os americanos serem tão orgulhosos de seu país. E algo do porquê de serem tão competitivos ou profundamente militaristas: a guerra exerce uma função de coesão social importantíssima e, se me permitem, acho que isso tem muito a ver com a raiz protestante da cultura norte-americana: erradicar o mal é uma tarefa moral e um dever dos homens e mulheres de bem (principalmente dos homens de bem). É preciso que exista a dicotomia entre o mal e o bem, us versus them, para que isso funcione. E funciona. Aqui embaixo as coisas não são tão assim separadas em caixinhas – ou talvez a gente use mais caixas para separar as coisas ao invés de apenas duas (obrigada, Mama Africa!). A impressão que tive foi a de que o protestantismo também ajudou a fundar, consolidar e sacralizar valores como democracia (pelo menos como eles a veem lá, um pouco diferente da nossa tradição democrática aqui) e liberdade de expressão. Mas, por outro lado, dessa mesma raiz saiu a crença na meritocracia e, dela, o capitalismo exacerbado pelo qual nossos primos gringos são conhecidos.

A meritocracia, como a gente sabe, é uma falácia. Não sei se existe de verdade nem na cabeça de quem acredita nela (e isso é algo que vai muito além de simpatias com esquerda ou direita), mas, nos EUA, acho que isso é uma realidade. Deus não abençoa quem não trabalha e o destino de quem não trabalha é ser pobre. Não fiquei lá tempo o bastante para observar, mas deu pra ver que Max Weber fez e faz, afinal, muito sentido. Como não ver a afinidade entre protestantismo e capitalismo in your face? Por outro lado, acho que fica visível também de onde surgiu a megalomania, o capitalismo selvagem, enfim, a Times Square. A riqueza antes era bênção de Deus (e não usura ou pecado, como na nossa tradição franciscana católica) e hoje, acho que continua sendo um dever moral. Acho que a necessidade de ganhar cada vez mais é uma anomalia desse tipo de valor. Mas realmente é preciso se passar mais que uma semana e meia num lugar para perceber algumas coisas (principalmente as que a gente julga ser óbvias).

Enfim. A gente fica viajando nessas coisas, mas é importante não deixar de ‘viajar na viagem’ – tentar estar cem por cento presente onde se está. MindFULLness.

Nova York se apresentou pra mim primeiro nas ondas de uma banda septuagenária de Dixie Land que tive a sorte de presenciar na NY Public Library for the Performing Arts. Veio depois nas notas de outra banda de jazz tocando numa tarde aleatória na Washington Square e, finalmente, se mostrou hipnótica no palco do Village Vanguard nas notas do piano de Kenny Barron.

Se mostrou inspiradora através do Metropolitan e do Natural History Museum. Foi bom ter companhia para versar sobre o papel e a função da arte, pós-modernismo, identidade cultural. Repensar conceitos. Esgotar argumentos. E poder ser uma das últimas pessoas a sair do museu sem sentir culpa. Melhor que ter amigos que compartilham gostos em comum é poder fazer o teste e provar o fato de que existem interesses em comum.

Nova York também se mostrou sensual (e aqui me sinto dando uma de Ítalo Calvino) em seus cheiros, gostos e cores. Os sabores da Índia, da China, do México e da Tailândia se misturaram à diversidade do orientalismo de China Town, ao mellow spirit de Little Italy, a realidade crua do Harlem e ao cool de Astoria, com um toque de casa de chá hip e um gostinho de biergarten.

A cidade me deu sua face assustadora (e dinâmica) pelas voltas no grande centro, em seu cenário ensandecido pós-futurístico megalômano à moda de Blade Runner na Times Square (ufa! Haja fôlego até pra descrever isso). E foi um soco no estômago em Wall Street (onde, em frente à Bolsa de Valores, tive o prazer de dar uma cuspida e limpar os sapatos).

Mas também se mostrou apaixonante por entre os cabos da Brooklin Bridge ao pôr-do-sol (e me lembro da lua linda que fazia naquele fim de tarde) e nas ondas do rio Hudson passando por debaixo do ferry para Staten Island.

E fez me sentir a menina mais sortuda do mundo por causa das companhias com quem tive o prazer de dividir refeições, vinhos, cervejas, conversas, impressões, planos, músicas, abraços e olhares. De Toronto a Nova York. Além de ter sido objeto de uma hospitalidade imensa (e não vejo problema em usar ‘objeto’ como termo aqui). Sortuda por ter tido a oportunidade de rever amigos que não via há algum tempo e, quem sabe, ter feito outros. De ter tido conversas interessantes e poder falar o que penso sem medo de parecer chata ou maçante demais, cansando a beleza e minando a paciência do meu interlocutor (e essas coisas acontecem).

Enfim. Não tenho como não ter gostado de um país que me recebeu tão bem. Com seus prós e contras, é claro, aspectos que maravilham e enojam, mas as pessoas são assim, as culturas são assim. Mas ainda foi muito pouco tempo para ter insights mais acertados sobre a cultura norte-americana. E foi uma experiência humbling também: não basta conhecer e ter um bom domínio da língua do lugar pra onde se vai – sacar as sutilezas exige muito tempo de observação e prática. E não é coisa para iniciantes. A comunicação, afinal, tem vários níveis, até chegar ao incomunicável. Foi um pouco chocante perceber que falta mais do que eu imaginava para entender certas peculiaridades de comunicação. Mas também faz lembrar (e ainda bem) que não é possível se diluir completamente em uma outra cultura, tendo sido criada num determinado lugar (não sei quanto às third culture kids – mas isso é papo pra uma outra conversa).

No final, me sinto feliz por poder desenhar a cidade e a experiência com palavras (e algumas fotos, de longe muito menos numerosas que as frases e caracteres que usei). Cada um fotografa como pode – na falta de talento com a câmera, a gente usa o que vem à mão. :-)

Rambling on

Tanto tempo sem escrever. Pelo menos aqui, pelo menos pra falar bobagens aleatórias.

E bobagem mesmo. Como, por exemplo, sobre o rei do camarote que causou tanta polêmica, tanto furor e tantos memes nas redes sociais por aí. Confesso que fiquei com muita preguiça de ler comentários, compartilhar coisas, dar curtidas. Mas, incrível, o Ibope que dou pro moço vem por aqui. Mas não dá vontade de chover no molhado e debater sobre se é imoral alguém gastar R$50mil numa balada ou comprar Veuve Cliquot pra lavar o chão do camarote. O que merece comentário, isso sim, é que faltou ver que o personagem da matéria, na real, tem uma tristeza inconfessa (mas visível) nos olhos. Não sei que tipo de vazio preenche a existência dele. Mas deu pra perceber, fácil, pelo vídeo, que o tal vazio existe. E transborda. De insegurança também. Imagina uma pessoa na casa dos 40 contando que até já transou no banheiro da balada, como se isso fosse um triunfo, ‘coisa que ninguém faz’. Ninguém sabe o que passa pela cabeça dele quando ele se olha no espelho ou se deita sobre seu travesseiro de penas de ganso – mas talvez um analista, desses bons, pudesse ajudar ao próprio Almeida a fazer isso. Se pudesse, daria um conselho: fiquei sabendo por alto que uma sessão com o Contardo Calligaris pode girar em torno dos R$700. Meu caro, uma única balada cobriria com folga quase um semestre de terapia (embora esse não seja o problema, claramente), com sessões três vezes por semana. Não é beber vodka, mas é um investimento de retorno em longo prazo que certamente vale muito a pena. Just sayin’.

***

E já que é pra falar bobagem, dias atrás esbarrei num vídeo em que um racista, defensor da supremacia branca Craig Cobb aparece em um talk show e descobre que tem 14% de DNA africano, sub-saariano, no seu pacote biológico. Claro que é uma cena engraçada. Mas pode deixar de ser quando se parece dizer a um sujeito “heeey, look at you, you’re lame too!” – um tipo de racismo, talvez, só que ao contrário. Mas é óbvio que o cara é absolutamente ridículo e não deve ter estudado história (ou finge não se lembrar que muitos de seus compatriotas perderam a vida tentando erradicar a suástica que ele orgulhosamente ostenta na porta de entrada de sua casa). Enfim.

***

Outra bobagem menos aleatória, talvez, é a impressão de um artigo que li na Atlantic, ‘Paris was my middle-school classroom‘. Muito bem escrito (já tinha lido outro artigo da mesma Tara Burton, muito interessante, sobre os motivos para se estudar teologia mesmo sem acreditar em nada. Tá circulando em algum lugar no fundo da caixola), traz algumas ideias interessantes sobre homeschooling e o que significa se educar fora de rígidos padrões de medição de ‘sucesso’. Já venho pensando nisso faz tempos, mas algo que me bateu mais forte que isso foi a impressão de que uma boa educação, institucional ou autônoma, depende muio mais de sorte e de se aproveitar boas oportunidades na vida do que de qualquer outra coisa. Mas nem todas as pessoas as têm. Claro que bate um pouco de ressentimento com a pessoa esfregando no seu nariz um ‘veja que legal a adolescência que passei andando de bicicleta pelo Quartier Latin, lendo clássicos franceses e traduzindo Cícero’ e coisa e tal, e o acesso a materiais de qualidade e experiências ricas (embora não fossem garantia de que uma pessoa vá se beneficiar apenas pelo mero acesso) foi determinante na experiência da autora. Foi só estender a mão, pegar e fazer bom uso, a coisa já estava lá. Não dá pra achar que o sistema meritocrático tem uma base sólida e racional pra funcionar. Estamos carecas de saber que as pessoas não começam o jogo do mesmo ponto de partida (e muita gente nem mesmo está no jogo). Enfim, mas não é esta a questão. A questão é que não se pode é se basear em experiências completamente fora da curva, como esta, para exemplificar que um sistema como o homeschooling funciona de fato. Mas que, funcionando ou não, seria legal que cada pessoa tivesse condições de estabelecer os próprios medidores de sucesso, adaptados aos objetivos que se tem na vida. Com uma colher de ouro servindo mingau na boca ou não.

Blah blah blah

Pra colocar um marcador em algumas coisas que me passaram pelos olhos esta semana, só pra não perder de vista mesmo:

– Na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira, vimos uma Dilma emputecida pela violação da privacidade nacional, discursando diretamente para o colega Obama. Visita de Estado cancelada, relações diplomáticas balançadas. E a aparente pressa em se resolver questões sobre o marco civil da Internet é algo que os brasileiros precisamos seguir de perto, ficar de olho mesmo.

– E ainda, em meio a todo esse imbróglio, uma repórter brasileira é arbitrariamente presa em Yale. É claro que é preciso outras versões da história pra se ter uma noção melhor de como e por que cargas d’água isso aconteceu. Mas não deixa de ser uma situação absurda, quase kafkiana. Bem, merdas acontecem.

– Por falar em “merdas acontecem”, um lembrete do IPCC, em duas palavras: estamos fritos.

– Menos urgente e bem menos grave, outra coisa que me chamou a atenção foi uma notinha que saiu na SciAm, “generosidade gera desprezo“. Dá pra viajar bastante pensando nisso (e nem é preciso ter uma mente muito fértil para tal, digamos), nas relações de poder que perpassam amizades, amizades coloridas, amor, desamor e coisa e tal. Da necessidade de se manter certas palavras e certos segredos, de não ligar pro cara no dia seguinte, de não colocar todas as cartas na mesa. Overdose de sinceridade is a killer. Mas uma coisa é certa: não é preciso ser um cuzão completo idiota para não “causar desprezo”. Se você é legal, por favor, recuse-se a se tornar um babaca em nome de mais poder na política de relacionamentos, quaisquer que sejam. Há que se recusar ser/tornar-se estúpido. Tem gente que é legal, generoso e atencioso por pura maneira de ser, ponto. Por que sufocar isso?

– Da série “delicadezas da escrita”, um conselho valiosíssimo sobre o bom escrever, de quem já esteve lá. E uma amostra de quem teve muitos bons conselhos e soube segui-los. Narrativa de perfil é mesmo uma coisa de extrema delicadeza. Deixa a vida mais leve.

Vinicius, um “cat” de primeira

Imagem: Companhia das Letras

Sem precisar me rasgar de elogios ao poetinha, mas esse livro, em formato de um EP antigo, é uma delícia, de se ler numa sentada. É uma reunião de textos e poemas que ele escreveu pra revistas como Flan e Sombra enquanto ocupava seu primeiro posto diplomático, em Los Angeles, entre 1946 e 1950. Na escrita, não deixa dúvidas de que era um “cat” (ou fã incondicional de jazz, na gíria dos EUA dos anos 40) que entendia do assunto, contando as coisas daquele jeito gostoso carioca de ser.

O livro é datado, sim, mas leve, também, e irônico, mais ainda. E mostra, principalmente, uma percepção não apenas sobre o jazz, gênero pelo qual Vinicius era aficionado, mas muito sobre a vida dele enquanto vice-cônsul brasileiro na terra de tio Sam, onde andava sempre bem acompanhado. Sua amizade com gente do calibre de Sarah Vaughan e Orson Welles deve ter facilitado bastante a convivência no meio daquela “sensaboria” da vida americana em fins de anos 40 e inicio de 50. A maioria dos jazzmen não fazia parte daquele clube de gente “self-satisfied” com que ele se deparou ao longo da sua estadia: era gente cuja cabeça estava sempre fervendo com novas notas e novas melodias, e, não raro, estavam muito à frente dos preconceitos de uma sociedade segregacionista que respirava o mccartismo. O jazz dava fôlego para nadar até a superfície daquilo tudo, respirar e voltar (imagino o quanto de oxigênio não deu pra absorver numa jam com Louis Armstrong e Benny Goodman no meio!).

Falando em segregacionismo, é particularmente interessante o texto de abertura, que fala sobre a origem do gênero. O negro assume o papel central na mistura e com ele nasce o improviso, fruto da adversidade em que vivia, e infelizmente essa parte da história a gente também conhece bem. “Desde a sua chegada, o negro é o mais ofendido e o mais humilhado dos habitantes da América”, lembra o poeta. De ponta a ponta do continente. Privados do direito de ser, de estar, de conversar entre si.

Proibidos de falar, cantavam. Cantando começaram a se comunicar uns com os outros. Todo um código vocal nasceu dessa limitação da necessidade de falar, hoje perdido, mas cuja história chega até nós. Foi este um dos sinais de revolta que nunca mais abandonaria o povo negro nos Estados Unidos. Quanta conversa de amor, quanta senha de aviso, quanto plano de fuga não deve ter corrido a pauta invisível estendida sobre o algodoal em flor! Que poder de inflexões novas não se devem ter acrescentado à voz crestada de sofrimento e revolta, nos solos, duetos e coros campestres!

E por aí vai a história, que se desenrola começando por uma New Orleans que juntava gente de todo tipo e de todo canto. Deu no que deu. Legal também são alguns paralelos, bem pontuais, que Vinicius traça com o samba daqui debaixo, com a bossa nova. Ou a sua “definição” de jazz ou suas farpas e elogios a jazzmen da época. A ideia não é fazer um tratado sobre o assunto, é juntar paixão em prosa e poesia num livro bonito graficamente, ricamente ilustrado como um álbum de fotos.

E sim, ter o poetinha como guia nessa pequena viagem é uma delícia.