Was ist passiert?

So the glitch wasn’t hidden in the engine of the aircraft. It was in between the control panel and the co-pilot seat in a locked cockpit. Everything about this mass murder is shocking, appalling. But there are a few aspects that maybe are worth thinking about.

One of them is the (even greater) stigmatization of people carrying some kind of mental illness. Sometimes they’re easy to hide, and there’s no safe way to detect and treat some, like depression, if the depressed him/herself doesn’t or can’t gather enough courage to face it. It’s a life-consuming leak which can be barely detectable and prone to cause some real damage – but we should be better at dealing with it as a society. Maybe not as a hypermedicated, ultracompetitive one, but maybe as a more human, understanding and compassionate one. Maybe this way people would want to have their names remembered and “change the system” not for what they can destroy and break, but for what they can create and heal – even if this is always a harder path.

And another thing is how we modulate actions and behavior in our control societies. Had the doctor who declared the young man “unfit to work” given the diagnosis to Lufthansa’s HR (or medical) department, what could have happened? But then: ethics might be a quite complicated line here, but what about when not being fit to work puts hundreds of lives under your care in danger? Again, the old debate of “exchanging our liberties for more safety” might pop up. But do we want to live in a hyper-surveiled society, up to the point of having this kind of delicate information disclosed to employers, being this information vital to the exercise of some trades? But then, if we don’t, do we incur in a greater danger of having disasters like the one that happened this week?

And what to say about something that was considered “suicide”, then “mass murder”, but not exactly “terrorism”? Does the latter depend on a strict connection to Al-Qaeda, Boko Haram or groups of this kind – or on being a Muslim? Of course when someone kills some 150 other people besides him/herself, that can’t be considered a plain suicide. Mass murder is much more appropriate. But why not say this was a terrorist act? Can’t white European people be liable to commit them, too?

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Um bookmark

Sobre o fenômeno dos rolezinhos, que andaram acontecendo e sendo reprimidos em São Paulo, uma análise válida (e séria) que vale a pena ler (a propósito, obrigada, Eliane Brum). A entrevista com o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, da Unifesp, aponta que o problema vai além da discriminação social ou racial – passa pela reivindicação do consumo como condição para a cidadania. As classes média e alta disseram o tempo inteiro para os pobres que o bom é consumir (não importando qual seja o custo ou quem paga por isso, no fim das contas). Agora que eles querem entrar no mundo do consumo (e o funk ostentação é lido, por vezes, como um sintoma disso), são barrados – pela polícia, não apenas no mundo simbólico, com preconceitos, chacotas e gente olhando de soslaio sobre suas pizzas de calabresa com catupiry. Uma coisa a se pensar.

Sobre o assunto, também, vale a pena trazer à baila o mais novo clipe da Valesca Popozuda, “Beijinho no Ombro”. Também exalta a ostentação e coloca a protagonista do clipe como a rainha do Funk, ‘esbanjando riqueza’. Não acho que as caras viradas para o kitsch disso tudo se resumam apenas ao preconceito social e à não-aceitação de uma ‘apropriação indevida’ que Valesca faz de elementos que não pertencem à sua realidade: não é só achar que pobre é pobre e tem que se contentar com a sua posição de subserviência subalterna e o que escapar desta ordem não é bem-vindo. É uma leitura muito simplista da coisa toda. Tem muita coisa pra se pensar sobre indústria cultural aí, das apropriações e mash-ups que se combinam o tempo inteiro gerando elementos novos, do excesso de elementos, de cores, das batidas, do exagero  das letras. Me peguei pensando que o clipe é brega, sim, mas me questiono sobre o porquê de achá-lo brega, mesmo achando toda essa breguice uma coisa genial (lembram da Gaby Amarantos?). É brega, mas é demais. Outra coisa pra se pensar sobre.

Rambling on

Tanto tempo sem escrever. Pelo menos aqui, pelo menos pra falar bobagens aleatórias.

E bobagem mesmo. Como, por exemplo, sobre o rei do camarote que causou tanta polêmica, tanto furor e tantos memes nas redes sociais por aí. Confesso que fiquei com muita preguiça de ler comentários, compartilhar coisas, dar curtidas. Mas, incrível, o Ibope que dou pro moço vem por aqui. Mas não dá vontade de chover no molhado e debater sobre se é imoral alguém gastar R$50mil numa balada ou comprar Veuve Cliquot pra lavar o chão do camarote. O que merece comentário, isso sim, é que faltou ver que o personagem da matéria, na real, tem uma tristeza inconfessa (mas visível) nos olhos. Não sei que tipo de vazio preenche a existência dele. Mas deu pra perceber, fácil, pelo vídeo, que o tal vazio existe. E transborda. De insegurança também. Imagina uma pessoa na casa dos 40 contando que até já transou no banheiro da balada, como se isso fosse um triunfo, ‘coisa que ninguém faz’. Ninguém sabe o que passa pela cabeça dele quando ele se olha no espelho ou se deita sobre seu travesseiro de penas de ganso – mas talvez um analista, desses bons, pudesse ajudar ao próprio Almeida a fazer isso. Se pudesse, daria um conselho: fiquei sabendo por alto que uma sessão com o Contardo Calligaris pode girar em torno dos R$700. Meu caro, uma única balada cobriria com folga quase um semestre de terapia (embora esse não seja o problema, claramente), com sessões três vezes por semana. Não é beber vodka, mas é um investimento de retorno em longo prazo que certamente vale muito a pena. Just sayin’.

***

E já que é pra falar bobagem, dias atrás esbarrei num vídeo em que um racista, defensor da supremacia branca Craig Cobb aparece em um talk show e descobre que tem 14% de DNA africano, sub-saariano, no seu pacote biológico. Claro que é uma cena engraçada. Mas pode deixar de ser quando se parece dizer a um sujeito “heeey, look at you, you’re lame too!” – um tipo de racismo, talvez, só que ao contrário. Mas é óbvio que o cara é absolutamente ridículo e não deve ter estudado história (ou finge não se lembrar que muitos de seus compatriotas perderam a vida tentando erradicar a suástica que ele orgulhosamente ostenta na porta de entrada de sua casa). Enfim.

***

Outra bobagem menos aleatória, talvez, é a impressão de um artigo que li na Atlantic, ‘Paris was my middle-school classroom‘. Muito bem escrito (já tinha lido outro artigo da mesma Tara Burton, muito interessante, sobre os motivos para se estudar teologia mesmo sem acreditar em nada. Tá circulando em algum lugar no fundo da caixola), traz algumas ideias interessantes sobre homeschooling e o que significa se educar fora de rígidos padrões de medição de ‘sucesso’. Já venho pensando nisso faz tempos, mas algo que me bateu mais forte que isso foi a impressão de que uma boa educação, institucional ou autônoma, depende muio mais de sorte e de se aproveitar boas oportunidades na vida do que de qualquer outra coisa. Mas nem todas as pessoas as têm. Claro que bate um pouco de ressentimento com a pessoa esfregando no seu nariz um ‘veja que legal a adolescência que passei andando de bicicleta pelo Quartier Latin, lendo clássicos franceses e traduzindo Cícero’ e coisa e tal, e o acesso a materiais de qualidade e experiências ricas (embora não fossem garantia de que uma pessoa vá se beneficiar apenas pelo mero acesso) foi determinante na experiência da autora. Foi só estender a mão, pegar e fazer bom uso, a coisa já estava lá. Não dá pra achar que o sistema meritocrático tem uma base sólida e racional pra funcionar. Estamos carecas de saber que as pessoas não começam o jogo do mesmo ponto de partida (e muita gente nem mesmo está no jogo). Enfim, mas não é esta a questão. A questão é que não se pode é se basear em experiências completamente fora da curva, como esta, para exemplificar que um sistema como o homeschooling funciona de fato. Mas que, funcionando ou não, seria legal que cada pessoa tivesse condições de estabelecer os próprios medidores de sucesso, adaptados aos objetivos que se tem na vida. Com uma colher de ouro servindo mingau na boca ou não.

Nada a acrescentar

a uma fala que tudo resume.

Essa semana se falou muito da Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento editorial do mundo. O país homenageado foi o Brasil. Nada mais coerente que a contundência do mineiro Luiz Ruffato em mostrar uma fotografia do país no discurso de abertura. Os tradiças ficaram chocados, Ziraldo passou mal e mandou Ruffato calar a boca: se acha o Brasil ruim, “que se mude!”. Mas não é tão simples assim. A filosofia do ame-o ou deixe-o ficou, ainda bem, para trás de nós. Bem para trás da minha geração. Temos liberdade para discutir nossos próprios problemas e de pensar como resolvê-los. Mas temos medo. Medo do confronto, medo de nos olhar no espelho. Isso incomoda e dói, quase tanto quanto sentar num divã e começar a desfiar medos escondidos, vícios, psicoses e problemas mal-resolvidos. Isso não é gostoso e não dá prazer, mas é um enfrentamento necessário para uma vida melhor, mais completa.

Roupa suja se lava em casa, mas a academia claramente não está dando conta do recado. Por isso achei genial a fala do Ruffato, que precisou estar longe pra ser ouvido aqui dentro (síndrome de vira-lata?). Espero que haja mais repercussão do que pessoas aplaudindo ou jogando pedra. E sim: se um livro pode mudar a vida de uma pessoa, a literatura pode mudar uma sociedade. Linda utopia pra se defender.

O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em
dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.