Rambling on

Tanto tempo sem escrever. Pelo menos aqui, pelo menos pra falar bobagens aleatórias.

E bobagem mesmo. Como, por exemplo, sobre o rei do camarote que causou tanta polêmica, tanto furor e tantos memes nas redes sociais por aí. Confesso que fiquei com muita preguiça de ler comentários, compartilhar coisas, dar curtidas. Mas, incrível, o Ibope que dou pro moço vem por aqui. Mas não dá vontade de chover no molhado e debater sobre se é imoral alguém gastar R$50mil numa balada ou comprar Veuve Cliquot pra lavar o chão do camarote. O que merece comentário, isso sim, é que faltou ver que o personagem da matéria, na real, tem uma tristeza inconfessa (mas visível) nos olhos. Não sei que tipo de vazio preenche a existência dele. Mas deu pra perceber, fácil, pelo vídeo, que o tal vazio existe. E transborda. De insegurança também. Imagina uma pessoa na casa dos 40 contando que até já transou no banheiro da balada, como se isso fosse um triunfo, ‘coisa que ninguém faz’. Ninguém sabe o que passa pela cabeça dele quando ele se olha no espelho ou se deita sobre seu travesseiro de penas de ganso – mas talvez um analista, desses bons, pudesse ajudar ao próprio Almeida a fazer isso. Se pudesse, daria um conselho: fiquei sabendo por alto que uma sessão com o Contardo Calligaris pode girar em torno dos R$700. Meu caro, uma única balada cobriria com folga quase um semestre de terapia (embora esse não seja o problema, claramente), com sessões três vezes por semana. Não é beber vodka, mas é um investimento de retorno em longo prazo que certamente vale muito a pena. Just sayin’.

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E já que é pra falar bobagem, dias atrás esbarrei num vídeo em que um racista, defensor da supremacia branca Craig Cobb aparece em um talk show e descobre que tem 14% de DNA africano, sub-saariano, no seu pacote biológico. Claro que é uma cena engraçada. Mas pode deixar de ser quando se parece dizer a um sujeito “heeey, look at you, you’re lame too!” – um tipo de racismo, talvez, só que ao contrário. Mas é óbvio que o cara é absolutamente ridículo e não deve ter estudado história (ou finge não se lembrar que muitos de seus compatriotas perderam a vida tentando erradicar a suástica que ele orgulhosamente ostenta na porta de entrada de sua casa). Enfim.

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Outra bobagem menos aleatória, talvez, é a impressão de um artigo que li na Atlantic, ‘Paris was my middle-school classroom‘. Muito bem escrito (já tinha lido outro artigo da mesma Tara Burton, muito interessante, sobre os motivos para se estudar teologia mesmo sem acreditar em nada. Tá circulando em algum lugar no fundo da caixola), traz algumas ideias interessantes sobre homeschooling e o que significa se educar fora de rígidos padrões de medição de ‘sucesso’. Já venho pensando nisso faz tempos, mas algo que me bateu mais forte que isso foi a impressão de que uma boa educação, institucional ou autônoma, depende muio mais de sorte e de se aproveitar boas oportunidades na vida do que de qualquer outra coisa. Mas nem todas as pessoas as têm. Claro que bate um pouco de ressentimento com a pessoa esfregando no seu nariz um ‘veja que legal a adolescência que passei andando de bicicleta pelo Quartier Latin, lendo clássicos franceses e traduzindo Cícero’ e coisa e tal, e o acesso a materiais de qualidade e experiências ricas (embora não fossem garantia de que uma pessoa vá se beneficiar apenas pelo mero acesso) foi determinante na experiência da autora. Foi só estender a mão, pegar e fazer bom uso, a coisa já estava lá. Não dá pra achar que o sistema meritocrático tem uma base sólida e racional pra funcionar. Estamos carecas de saber que as pessoas não começam o jogo do mesmo ponto de partida (e muita gente nem mesmo está no jogo). Enfim, mas não é esta a questão. A questão é que não se pode é se basear em experiências completamente fora da curva, como esta, para exemplificar que um sistema como o homeschooling funciona de fato. Mas que, funcionando ou não, seria legal que cada pessoa tivesse condições de estabelecer os próprios medidores de sucesso, adaptados aos objetivos que se tem na vida. Com uma colher de ouro servindo mingau na boca ou não.

Faltavam 20 centavos

Pra cair a gota d’água em São Paulo.

Os protestos estão rolando desde semana passada, a cidade fica parada em horário de pico, mas não, não se trata de vandalismo público. É uma revolta com uma situação insustentável que combina uma má qualidade do transporte coletivo (coletivo pra quem, cara-pálida? para os donos da CPTM?), segurança pública precária, preços abusivos para itens básicos (acho meio difícil não encontrar um paulistano que nunca tenha tido vontade de jogar as mãos pro alto no caixa e dizer pro operador: “pode levar o resto!”) e por aí vai. Tudo isso em meio a um misto de histeria coletiva e desinformação, somada a suspiros de quem tem saudade de que coisas assim sejam resolvidas com borracha nas costas. E é engraçado que queiram deslegitimar o movimento por ter sido ele provocado por filhinhos de papai classe-média-sofre. E criminalizar a todos eles por causa da parcela que sai quebrando tudo. Pelo amor de Deus. O problema não são os R$0,20 por si só  – que, ao contrário do que andam dizendo por aí, fazem sim a diferença no bolso de muita gente no fim do mês, principalmente no de quem não está lá para protestar. O problema é que São Paulo está cada vez menos convivível, menos humana, mais massacrante e mais extenuante a cada dia que passa. O problema é não ter os direitos humanos respeitados. O problema é não querer negociar e tentar abafar o que acontece usando a repressão pura e simples. Não é terrorismo de que se trata. É a manifestação pública em defesa da não restrição do direito de ir e vir (mas ao abrir o jornal essa não é, obviamente, a impressão que se tem). O problema é, como me disse o antropólogo Roberto Kant uma vez, que o Brasil não sabe lidar com resolução de conflito. Não sem descer o porrete, sem mandar calar a boca, sem usar de truculência. O problema é que a gente só quer “pacificar” (acho que quem mora no Morro do Alemão me daria razão) e não entender ou resolver os conflitos. É só conciliar, equalizar opiniões.

Mas que bom que elas começam a destoar em outras partes do Brasil também. Nem que lá elas também custem R$20 mil por cabeça.

(*Updating: wish I could see something like this CNN article in Brazilian mainstream media. Really.)

Desempoeirando – parte III

Mais um pra galeria de desempoeirados, também de 2007. Mais uma vez, juntando duas deliciosas formas de arte, a música e o cinema. Esse, se não me engano, foi pra sessão de “Pérolas do Youtube” do site pra onde escrevia. Bateu saudade.

Vizinhos, vizinhos, Hitchcocks à parte

 

Quem nunca teve a curiosidade voyeurista de bisbilhotar a vida dos outros, que atire a primeira pedra. Da figura lendária da vizinha fofoqueira ao frisson moderno dos Big Brothers brasileiros, essa curiosidade pelo que os outros fazem já rendeu muitos filmes a Hollywood e o clássico do gênero, “Janela Indiscreta”- filmado pelo mestre Hitchcock – está na galeria das obras de arte da indústria cinematográfica.

Em uma alusão direta e muito bem-humorada ao filme Janela Indiscreta, de Hitchcock, o cantor folk francês Renan Luce faz o papel de James Stewart para o videoclipe de um de seus hits, “Les Voisines”, baseado em uma montagem postada anteriormente no Youtube, com cenas idênticas com o James Stewart real ao lado de Grace Kelly. Cartada acertada de Luce, as cenas usadas em “Les Voisines” casaram perfeitamente com o ritmo nostálgico e dançante da melodia. A troca proposital deste quase-remake, de “voisins” (que em francês quer dizer “vizinhos”) por “voisines”, é uma elegia às suas vizinhas, que, muito mais do que serem espiadas por trás de fechaduras de portas de banheiro ou através de binóculos tentando transpor a barreira de persianas fechadas, são observadas pela janela aberta, de onde o observador tem uma visão panorâmica delas.

O início do videoclipe é a cópia exata da abertura, que mostra Stewart com a perna esquerda engessada em uma cadeira de rodas, de frente para sua janela. Além do foco principal (“as voisines”), os atores coadjuvantes – as outras pessoas da vizinhança, que são igualmente observadas por “Renan Stewart” – são parte importante do “remake” feito no musical. Suas performances quase chaplinianas não passam despercebidas e há outro elemento muito interessante no clipe que merece a atenção do internauta: “Renan Stewart” passa de observador a observado por seu “inimigo” na trama, o vizinho Walthorp, de quem Stewart suspeita ter cometido um assassinato. É a parte mais legal de todo o clipe, sem contar o fechamento do vídeo que tem o “The End” nos mesmos moldes da logo da Paramount Pictures. Memorável.

A música do artista francês, que é influenciada por nomes como Joan Baez e Bob Dylan transita entre o pop e o folk, combinando a voz melódica de seu francês a suaves acordes de violão. “Les Voisines” é a primeira música do álbum Repenti, lançado pela Universal no início do ano passado, e em 2006 fez parte da coletânea So Frenchy So Chic, que é a trilha sonora não-oficial do Festival de Cinema Francês na Austrália. Este ano Luce voltou a participar do So Frenchy…, mas dessa vez com “Le Lacrymal Circus”. E a aparente paixão de Renan Luce pelo cinema não pára por aí: é possível conferir também um vídeo em que, junto com a cantora Elodie Fregé, toca “Bang-Bang”, mais famosa por ser a trilha de Kill Bill, do americano Quentin Tarantino.

O que faz parecer, portanto, é que cinéfilos são, no fundo, grandes voyeurs. Adoram mirar tudo o que acontece à volta através da grande janela que é a tela do cinema, ou, mais comodamente, através da televisão.

Clipe Les Voisines com imagens do filme “Janela Indiscreta”

Renan Luce – cantando Bang Bang

Desempoeirando – parte II

Mais um de 2007, achado junto com o anterior. Bem divertido de escrever e seguramente publicado com outro título, de que obviamente não vou me lembrar. There it goes.

Movies that rock 

Dublin, Irlanda. Início dos anos 90, e há uma banda chamando a atenção dos moradores da cidade. É o U2 de Bono Vox? Bom, não exatamente. Quem começa a causar frisson entre as camadas mais baixas da capital irlandesa são os “Commitments”, banda de soul que veio para levantar a auto-estima e mudar a condição de vida dos dublinenses através da arte. Interessante, mas não, apesar de parecer, isso não é um projeto social. É idéia do jovem Jimmy Rabbite, que colocou um anúncio no jornal como quem lança um desafio para os futuros membros da banda: “have you got soul?” (você tem ‘alma’? ou ‘soul no sangue’?) “Então, a banda mais batalhadora do mundo está à sua procura!”. E o tempo passa, a banda se forma e no fim eles acabam sacudindo o subúrbio de Dublin e fazendo um pouco do que Jimmy tinha proposto no início: levantar a auto-estima das pessoas e fazer de Dublin um lugar menos frio e menos assombrado pela situação sócio-econômica da época.

Bacana a história, não? E podia até ser totalmente verídica, não fosse pelo fato de que é o enredo de The Commitments – Loucos Pela Fama, que conta a trajetória de uma banda que tem tantos integrantes quanto as trupes Arcade Fire ou Belle & Sebastian, com inspirações musicais de nomes indispensáveis como James Brown e Aretha Franklin. Dirigido por Alan Parker (de A Vida de David Gale e The Wall) em 1991, The Commitments transcende o simplesmente mostrar “estes são Os Commitments!” para assumir um discurso político e psicológico muito marcante, já que Parker não esconde a realidade dos subúrbios de Dublin da época e nem o quanto é difícil se administrar uma banda.

Mas aí vem a segunda parte da história: “The Commitments” é tão bacana que acabou gravando de verdade e se tornou uma banda “de carne e osso” fora das telas. Dick Massey (bateria) e Kenneth McCluskey (guitarra) fazem parte da formação original da banda e atuaram em The Commitments, e hoje a trupe tem três CDs: dois da trilha sonora do filme e um ao vivo, “Commited to Soul”, do qual os atores Michael Aherne (Steven “Cirurgião” Clifford), Robert Arkins (Jimmy Rabbite), Johnny Murphy (Joey “Bocal” Fagin) e Dave Finnegan (Mickah Wallace) fizeram uma participação especial. A banda está em tour pela Europa até dezembro deste ano e, em seu último tour nos Estados Unidos, os Commitments foram à Casa Branca e conheceram (até) o presidente Bush.

Esse é o caso de uma banda que fez tanto sucesso na ficção que a realidade acabou por “puxá-la” para si. Outras bandas (de rock, mais especificamente) também fizeram (e fazem) um sucesso estrondoso nas telas. Se Beatles, Stones, U2 e Led Zeppelin são algumas das maiores estrelas em carne, osso, baterias e guitarras do rock mundial, as telas também têm seus astros musicais – de todos os gostos e estilos.

Só para citar algumas, tome-se por exemplo a “rainha” de todas as bandas fake, a Flower-Power que virou metaleira “Spinal Tap”, de This Is Spinal Tap. Na banda, a transposição dos trejeitos, da forma de tocar, as línguas pra fora, alusões ao diabo e as excentricidades lembram muito o Kiss de Gene Simmons e Paul Stanley, que ‘aterrorizou’ o mundo nos anos 70. O sucesso de Spinal Tap foi tão grande que as estrelas (sim, eles merecem esse título) têm até uma aparição, pasmem, nos Simpsons. A mesma Springfield que tremeu com U2 e Red Hot Chilli Peppers viu a banda idealizada pelo cineasta Rob Reiner no maior agito, seguido da quebradeira inevitável que shows de heavy-metal provocam dentro e fora das telas. De todas as bandas fictícias, a Spinal Tap de David St. Hubbins, Nigel Tufnel, and Derek Smalls é uma das mais cultuadas (se não for a mais cultuada) entre todas as bandas fake de rock desde a década de 1980.

Os fofos do rock

Mais comportados (mas nem por isso menos talentosos) que Spinal Tap são os fofos da banda “Stillwater”, do famosérrimo longa Quase Famosos, de Cameron Crowe (Vanilla Sky), com Kate Hudson e Phillip Seymour Hoffman no elenco. A história se passa na Los Angeles de 1973, e conta a trajetória na estrada da banda de Russell Hammond, Jeff Bebe, Ed Vallencourt e Larry Fellows e suas amizades, amores, desamores e descobertas ao longo do caminho, além das aventuras de um aspirante adolescente a jornalista musical, William Miller, vivido por Patrick Fugit. Qualquer amante de rock gostaria de ter sido o William da trama porque, aliás, ele viveu na época em que bandas do naipe de Led Zeppelin, Pink Floyd e The Who estavam lançando seus clássicos, e Aerosmith, Kiss, The Eagles e Scorpions eram então recém-nascidos no mundo do rock. Sem contar que figuras como John Lennon e Freddie Mercury ainda eram vivos para ser entrevistados.

Mas o filme não fala dos estrelões citados acima (apesar de os caras terem dividido hotéis e algumas cervejas com gente como David Bowie e Bob Dylan), e sim de Stillwater, uma banda que tinha muito potencial para fazer parte do primeiro time do rock, cuja inspiração era Led Zeppelin, Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd, as preferidas do diretor Cameron Crowe – e que realmente foram entrevistadas por ele, quando surpreendentemente, aos 15 anos, virou repórter da Rolling Stone, nos anos 70. E claro, seus integrantes se vestiam como autênticos músicos da época, com bigodes e cortes de cabelo que lembram John Fogerty do Creedence Clearwater Revival.

No backstage de Stillwater estão músicos como Peter Frampton na guitarra e Marti Frederiksen (trabalha com o Aerosmith) no vocal. Músicas como “Hour of Need”, “Love Comes and Goes” e “You Had to be There” estariam muito bem colocadas na Billboard se a banda de Russell Hammond seguisse os mesmos passos dos Commitments. E não apenas isso: a muito bem trabalhada trilha do filme tem Rod Stewart, Simon & Garfunkel, Led Zeppelin e Beach Boys na lista e é a alma de Quase Famosos.

Não poderia deixar de fora da seleção a supercool “The Wonders”, de The Wonders – O Sonho Não Acabou, dirigido e estrelado por Tom Hanks. No filme, a pequena cidade de Erie, na Pensilvânia, é casa dos “Oneders”, uma banda de amigos que tocava baladinhas românticas à la Richie Vallens, como todas as americanas dos anos 60. Mas quando o baterista quebra o braço, os Oneders resolvem passar as baquetas a Guy Patterson (Tom Everett Scott), que trabalhava na loja de eletrodomésticos do pai e era aficcionado por jazz. Por ‘acidente’, Guy imprime sua marca à música “That Thing You Do” e a transforma em um grande sucesso que leva a banda à galeria de rockstars americanos, chegando a ser comparados aos Beatles. Os Wonders, como foram batizados mais tarde pelo seu empresário, têm muitas características musicais que lembram bandas da época como os Beatles, Beach Boys e The Kinks (mas com vocais que lembram um pouco Phil Collins), e na telona os caras foram a maior sensação da juventude americana de 1964, com uma carreira meteórica, comum a várias bandas de rock em todas as épocas.

Falando em carreiras meteóricas, vale a pena lembrar das garotas Josie McCoy, Melodie Valentine e Valerie Brown da banda Josie and the Pussycats, do filme Josie e as Gatinhas (recriação do desenho animado de mesmo nome, dos anos 70). Num estilo totalmente Avril Lavigne e Blink 182, as garotas entram para o mundo da fama de forma tão meteórica quanto (e muito mais estranha, claro) os Wonders de Tom Hanks. Os diálogos adolescentes e as lições de moral que acompanham a trama (além da atuação digna de dramalhões mexicanos do cast escolhido por Harry Elfont e Deborah Kaplan) casam muito bem com a idéia da banda que quer salvar o mundo e para isso precisam enfrentar uma mega organização que conspira contra o bem-estar da adolescência americana.

Barry Jive and The Uptown Five – banda que faz o melhor estilo rock-meloso bem ao estilo de Peter Frampton – por sua vez, merecem ser lembrados por causa da atuação do engraçadíssimo Jack Black (como Barry) em Alta Fidelidade. Apesar de ter aparecido só no finalzinho do longa, a hora em que Barry Jive toca é uma das mais bacanas do filme por um detalhe que ele não deixa escapar: até a sua estréia, a banda já tinha mudado de nome várias vezes (dá pra imaginar o futuro que os caras teriam se fossem contratados por uma gravadora?).

A queer band

Mas enfim, tirando vilões, heróis e mocinhos de tramas adolescentes, e mudando radicalmente de assunto (mas nem tanto), uma das bandas de rock mais famosas e mais exóticas da ficção certamente é a “Venus in Furs” (não, não é coincidência. O nome da banda é mesmo inspirada na música homônima escrita por Lou Reed quando ele ainda fazia parte do Velvet Underground), do filme Velvet Goldmine, quarta produção do cineasta americano Todd Haynes (de Longe do Paraíso).

É através desta banda – a mais queer da Londres do início dos anos 70 – que Haynes conta a história do glam rock britânico, com toneladas de purpurina, sexo, drogas e muito, mas muito rock’n roll de boa qualidade – além da atuação sensacional de Jonathan Rhys-Meyers no papel do controverso Brian Slade, que simulou sua própria morte em 1974. Brilhantes também, vale ressaltar, foram Ewan McGregor (como Curt Wild), Christian Bale (na pele do jornalista Arthur Stuart) e Toni Colette (como Mandy Slade, ex de Brian Slade). Estrelaram a Venus In Furs ninguém menos que Thom Yorke e Jonny Greenwood (vocalista e guitarrista do Radiohead), Andy Mackay (sax do Roxy Music), Bernard Butler (ex guitarrista do Suede), além do baterista Clune, que acompanha David Gray em seus shows. Merecem destaque também Thurston Moore e Steve Shelley (vocalista e baterista do Sonic Youth) e Ron Asheton (guitarrista do The Stooges), que, junto a outros músicos da cena indie mundial, integraram o Wylde Rattz, banda coadjuvante do longa.

Com produção executiva do não menos famoso vocalista do R.E.M., Michael Stipe, Velvet Goldmine simplesmente arrasa no quesito trilha sonora. E a trilha, unida à forma, exagero, excentricidade, luxúria e escândalo (palavras de ordem do longa), fazem do filme um documento histórico-musical de primeira qualidade. Não faltam alusões à astros como Lou Reed, David Bowie, Patti Smith e Ziggy Stardust diluídas em cada quadro, além da trilha sonora que inclui desde Brian Eno, Teenage Fanclub e Roxy Music até uma participação do Placebo na música “20th Century Boy”, no show de comemoração à morte do glam.

Só a título de curiosidade, esta não é a primeira produção de Todd Haynes que tem o universo musical como fonte de inspiração do enredo. Superstar: The Karen Carpenter Story, de 1987, conta como foi a vida da vocalista do The Carpenters nos anos 70, sua relação com a anorexia e o legado que a banda deixou para as gerações posteriores. Já em Corporate Ghost, Haynes faz uma compilação de 24 vídeos do Sonic Youth que vão de 1990 a 2002. Seu mais recente trabalho, I’m Not There (deste ano) tem a vida de Bob Dylan como base para que sete outros personagens incorporem um aspecto diferente da vida do tão-famoso cantor folk americano.