Was ist passiert?

So the glitch wasn’t hidden in the engine of the aircraft. It was in between the control panel and the co-pilot seat in a locked cockpit. Everything about this mass murder is shocking, appalling. But there are a few aspects that maybe are worth thinking about.

One of them is the (even greater) stigmatization of people carrying some kind of mental illness. Sometimes they’re easy to hide, and there’s no safe way to detect and treat some, like depression, if the depressed him/herself doesn’t or can’t gather enough courage to face it. It’s a life-consuming leak which can be barely detectable and prone to cause some real damage – but we should be better at dealing with it as a society. Maybe not as a hypermedicated, ultracompetitive one, but maybe as a more human, understanding and compassionate one. Maybe this way people would want to have their names remembered and “change the system” not for what they can destroy and break, but for what they can create and heal – even if this is always a harder path.

And another thing is how we modulate actions and behavior in our control societies. Had the doctor who declared the young man “unfit to work” given the diagnosis to Lufthansa’s HR (or medical) department, what could have happened? But then: ethics might be a quite complicated line here, but what about when not being fit to work puts hundreds of lives under your care in danger? Again, the old debate of “exchanging our liberties for more safety” might pop up. But do we want to live in a hyper-surveiled society, up to the point of having this kind of delicate information disclosed to employers, being this information vital to the exercise of some trades? But then, if we don’t, do we incur in a greater danger of having disasters like the one that happened this week?

And what to say about something that was considered “suicide”, then “mass murder”, but not exactly “terrorism”? Does the latter depend on a strict connection to Al-Qaeda, Boko Haram or groups of this kind – or on being a Muslim? Of course when someone kills some 150 other people besides him/herself, that can’t be considered a plain suicide. Mass murder is much more appropriate. But why not say this was a terrorist act? Can’t white European people be liable to commit them, too?

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Nada a acrescentar

a uma fala que tudo resume.

Essa semana se falou muito da Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento editorial do mundo. O país homenageado foi o Brasil. Nada mais coerente que a contundência do mineiro Luiz Ruffato em mostrar uma fotografia do país no discurso de abertura. Os tradiças ficaram chocados, Ziraldo passou mal e mandou Ruffato calar a boca: se acha o Brasil ruim, “que se mude!”. Mas não é tão simples assim. A filosofia do ame-o ou deixe-o ficou, ainda bem, para trás de nós. Bem para trás da minha geração. Temos liberdade para discutir nossos próprios problemas e de pensar como resolvê-los. Mas temos medo. Medo do confronto, medo de nos olhar no espelho. Isso incomoda e dói, quase tanto quanto sentar num divã e começar a desfiar medos escondidos, vícios, psicoses e problemas mal-resolvidos. Isso não é gostoso e não dá prazer, mas é um enfrentamento necessário para uma vida melhor, mais completa.

Roupa suja se lava em casa, mas a academia claramente não está dando conta do recado. Por isso achei genial a fala do Ruffato, que precisou estar longe pra ser ouvido aqui dentro (síndrome de vira-lata?). Espero que haja mais repercussão do que pessoas aplaudindo ou jogando pedra. E sim: se um livro pode mudar a vida de uma pessoa, a literatura pode mudar uma sociedade. Linda utopia pra se defender.

O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em
dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

Sem interromper o coito, por favor

Agora sim, vamos falar de viagem. Há menos de vinte dias, eu voltava de uma. Dessa vez, foram cinco cidades em quinze dias. A matemática básica diz que isso equivale a um vôo a cada três dias. A não repetir.

Não que tenha sido uma viagem ruim: de jeito nenhum, muito longe disso (a não ser por dores de cabeça que a KLM me deu de presente, mas isto merece outro capítulo. E um longo). Tinha compromissos a cumprir, e acho que deu pra dar conta do recado. Revi amigos e conheci lugares, e isso foi a melhor parte. Mas não acho que viajar à japonesa seja meu estilo: afinal, sou devagar pra escrever, devagar pra comer, devagar pra acordar e até pra pensar, às vezes. Não sei de onde vem esse hábito de ruminar sobre as coisas (mineiramente?), mas isso não é lá algo contra o qual se possa lutar e brigar – ao menos não sem provocar um cataclismo existencial. Enfim: o que acontece é que, se a natureza não ajuda, a gente se força pra fazer as coisas depressa. E acaba acreditando nisso  de que dá conta. Mas aí você se depara com uma indigestão e vê que comeu tão rápido que o estômago acabou por não encher direito. Ou que gastou tanto tempo nas preliminares que na hora do vamo-ver a coisa acabou em coito interrompido.

– Que ficou, majoritariamente, por conta do Porto: dois dias e meio, em vésperas da festa de S. João, sem poder participar dela por ter que seguir viagem. Mas rever gente querida foi melhor do que eu podia imaginar. É ótimo ter aquela sensação de que o tempo passou, mas, afinal, não passou tanto assim: vão-se anos, mas parece que foram poucos meses. É como se fosse possível congelar e descongelar conversas e abraços. Deve ser a tal “amizade de baixa manutenção” de que um outro amigo falava dia desses. Poxa, como é bom saber como é isso. Essa (boa) sensação não valeu só pro Porto, mas também pra Madri, Birmingham, Amsterdam e Dublin, cidades que guardam gente bastante querida. A melhor parte disso tudo foi trocar impressões, dividir cervejas, vinhos, almoços, jantares, saídas, risadas e planos. Rever lugares. Conhecer os bebês dos amigos e vê-los sorrindo, felizes à toa (“springtime in Europe!”). Viajar à japonesa sem dúvida já teria valido a pena se parasse por aí.

Mas também tinha compromissos pra cumprir na agenda, e como disse, a impressão é a de que dei conta da coisa. Não extraordinariamente (poderia ter feito uma pesquisa e uma apresentação bem mais interessantes, mas vamo aí), mas foi. E foi. Uma semana em Dublin se resumiu a quase uma semana na DCU, trocando ideias, ouvindo, falando. Mas senti que foi um pouco difícil alcançar as pessoas. Os colegas engravatados da Communication Research me fizeram lembrar e (cara, que estranho) sentir  um  pouco de saudade da Assembleia Geral da IAU no Rio, em 2009, exatamente por serem (pra  usar um termo bonitinho) antípodas: quase todo mundo de camisa pólo, shorts e meias acima das canelas, bem mais abertos a trocar um ou dois dedos de prosa. Com gente tão simples quanto os caras que votaram para tirar Plutão do Sistema Solar (despojamento, sabe?). É claro que não ter um paper pra apresentar ajuda a aliviar a pressão e te faz sentir bem mais à vontade – e ser diferente, ou no caso, não-cientista fodão, também ajuda bastante. Mas não é o primeiro congresso de que participo na minha área e é aquela mesma impressão: as pessoas poderiam ser um pouco mais comunicativas (que paradoxo), não no sentido literal da coisa, mas, sei lá, fazer-se mais “aproximáveis”. We’re all on the same boat, n’est ce pas? Sei lá, talvez eu também estivesse um pouco arisca. Mas enfim. Sem paradoxos a vida não seria um negócio tão interessante.

Por falar em paradoxos, percebi que, em muitos lugares por onde passei no Velho Continente, a crise tá feia. Aliás, continua feia e mostrando os dentes. No P e S dos PIGS, o desemprego não mostra sinais de baixar (a quase 20% em Portugal e mais de 25% na Espanha – e a impressionantes 43% para pessoas com menos de 25 anos só em Portugal) e na Irlanda a coisa parece ser mais branda, a cerca de 14%. Não que seja pouca coisa, é só menos pior (pra se ter uma noção, o Brasil, há bem pouco tempo, tinha menos de 6% de desemprego, com “pleno emprego” em algumas partes do país – Minas entre elas). Enfim. O paradoxo é que a qualidade de vida continua boa. Com um pouco mais de medo e desconfiança, é verdade, mas boa (não, e não vou comparar com o Brasil porque essas coisas não têm sentido. Não tá tão ruim assim e pronto). Pra quem tem emprego, nem que esteja por um fio, claro. Outro paradoxo é que, enquanto rolavam manifestações contra a austeridade pipocando pelo Velho Mundo e inundando a rua Augusta, em Lisboa, e a Av. dos Aliados, no Porto, por exemplo, eu estava acompanhando a coisa, de longe, no meu desassossego paulista, torcendo pelos de lá. E quando começaram as manifestações do lado de cá (destino, seu fanfarrão!), eu estava do lado de lá torcendo pelos amigos que cá estavam na rua. Pelo menos antes de a coisa degringolar e descambar para a zoação. Em tempo real via wi-fi. Enfim. Mas é bom ter essas histórias pra contar, nem que a ironia delas seja mais interessante que a própria história. Right?

E claro, foi legal conhecer Bruxelas (por favor, sem pedir pra explicar o sistema político belga, eu disse que o tic e o tac batem devagar dentro da caixola) e ver que a zona neutra dentro do Euro afinal funciona para o que foi criada. Mas é uma mistura de água, óleo e areia que eles parecem fazer muito esforço para manter em constante movimento pra ver se os elementos se misturam. Ou às vezes nem isso. Os próprios belgas se atrapalham pra explicar um sistema político que se separa por regiões e línguas (and a LOT of stuff in between). Dá pra se notar a heterogeneidade até/principalmente/muito na arquitetura (pelo menos em Bruxelas): água e areia nuns lugares, óleo e água em outros. No centro, pouca coisa se harmoniza (não que isso seja ruim, just saying): prédios bem modernos no centro dividindo um mesmo quarteirão com, sei lá, art noveau, ou algo bem mais antigo que definitivamente contrasta com o anterior, e ah, um em estilo grego mais à frente. Mas o legal é que os belgas, como bons europeus que são, também mantém marcado no chão o contorno da muralha que protegia a cidade bem antes de ela ser cidade. E ah, tem o Manneken Pis que é uma estatuazinha (“zinha” mesmo, tem uns 60cm) atribuída a um menino bochechudo que, dizem, apagou um incêndio na cidade com um gracioso fio de xixi, salvando-a de uma invasão estrangeira há uns bons muitos anos, lá pelo século XIV (Gracinha, não?). Vi obras de cartunistas em prédios, o TinTin de Hergé entre eles. Vi o Arnold Schwarzenegger (sim, ele mesmo!) comprando tapetes numa loja aleatória. E tomei cerveja (muito boa, diga-se) em um bar onde o menu tem a espessura da última edição da Vogue. E claro, comi waffles e chocolates, cerejas enormes e doces e gastei dotes culinários fazendo arroz e feijão pra minha host. E até que não fiz feio.

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Dublin também foi bem interessante, mais calmo talvez, com direito a voltas pelo centro da cidade num daqueles double-deckers turísticos (contra os quais eu sempre tive um preconceito terrível mas não pude resistir ao convite dessa vez, por pura curiosidade. No regrets) com um primo que mora lá – e, honras da casa à parte, ele tirou um dia inteiro pra me mostrar o lugar. Confesso que me apaixonei por lá. Não tanto por ter uma beleza estonteante (e quem aqui disse que os lugares mais bonitos são os mais interessantes? Acontece frequentemente com gente, também), mas pela alegria da cidade, pelas Guinesses em boa companhia, pela vista do mar a partir de Howth, pelo porto que tem uma paisagem sensacional e leões-marinhos super simpáticos que ficam fazendo gracinha para quem passa ao longo das embarcações atracadas. Pela noite que pede licença pra chegar pelas 22h no verão – e chega de mansinho pra não assustar. Ou pela paixão dos fãs de Bono Vox marcadas na parede do estúdio da banda dele na parte central da cidade (se fosse dublinense talvez não pensasse isso, ah, whatever). Pelo que estava fora da agenda, sempre, embora o que estivesse na agenda tenha sido legal também, em menor proporção. Me apaixonei pelo Brazen Head, o pub mais velho de Dublin, criado em 1198, quando todo o continente americano nem sonhava em nascer. Escutei programas de rádio falando da crise (o tempo quase TODO em que escutava o noticiário de manhã) e de seguridade social, com falas entrecortadas por amenidades. Quando cansava, me sentia um pouco ingrata por colocar um Clash pra tocar. Mas não acho que Wilde se ofenderia com isso.

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Enfim, foi tudo muito bom enquanto durou. A única coisa que não repetiria é a logística – menos pela freqüência famigerada de idas e vindas do que pela escolha do primeiro e do último trecho viajado. E achei que dessa vez ia ficar convencida de que meu lugar não é mesmo aqui, na parte sul do Novo Mundo. Em parte sim (afinal de contas, que noção é essa de “lugar” que a gente tem?), mas em boa parte, não. Pelo contrário: acho que posso ser bem mais útil aqui do que seria lá. Talvez seja mais fácil unir habilidade e paixão num lugar onde ambas possam ser aplicadas e sejam muito necessárias. Ir embora daqui, ao menos muito em breve, seria, ao fim e ao cabo, outro coito interrompido: você acaba de se formar, tem a faca e o queijo na mão pra fazer algo útil mas prefere empregar o que sabe num lugar onde há outras sei lá quantas pessoas por quilômetro quadrado com a mesma formação. Pode ser uma escolha confortável, talvez, mas pode não ser a melhor. A pensar. But first things first.

E ainda: mais textos

Por falar em divulgação científica, crianças e coisas legais, ainda há algumas palavras (estas, estas e estas) que ajudei a escrever durante o tempo que passei pelo GalileoMobile – projeto itinerante de astronomia que conta com o apoio do Observatório Europeu do Sul (ESO, de qual o Brasil tem um pé dentro e outro fora, por enquanto). O mais legal mesmo foi ter colaborado pra repensar o plano de mídia, que deu trabalho mas deve estar dando mais certo do que a encomenda por agora. Outro projeto que dá saudades. :-)

Made in Poland

From my experience, it’s quite hard to find a person who doesn’t like music or travelling, or even a person who doesn’t have something delightful to tell about their Erasmus time. People eventually get bright-eyed when talking of these subjects – and studying them must be for sure an excitement as big as the challenge of doing it represents. To talk about them, I got an interview (that I’m very glad to share!) with Katarzina Wyrzykowska, a friend of mine who is working her way out in the scientific world by starting her PhD on Sociology of Music at the Polish Academy of Sciences. She’s part of what I’d call a “brave new breed” of young researchers, passionate for knowledge and curious about what goes round them – both quintessentially necessary characteristics for a good scientist.

We talked about the subjects, methods and results of researches, as the result of an idea that came by in a Sci-Journalism class I had earlier this semester. Enjoy!

What exactly are you going to study within Sociology of Music?

Well, the title (working title) of my PhD thesis is: “Adolescents participation in music culture as a part of their life style”. So it is not concerning only Sociology of Music (or broadly speaking Sociology of Culture), but it is a more interdisciplinary subject. However, using findings of other social sciences, I will be still acting as a sociologist. Because this project is an empirical study, I want to use a tool called In-depth Interview (IDI). I am a quality-oriented scientist (humanistic sociology) and my research is supposed not only to show participation but a meaning and motivation which individuals give to their own actions. In polish sociology it is called “comprehensive research” – that You are not interested “how” it look likes, but also “why” (question of meaning and motivation).

What are your sources, since you said that in Poland there are not too many people studying that now?

That’s true. Since the end of the 1980’s, or to be precise since 1989, music is not a popular subject of sociological studies in Poland. My hypothesis is that system transition has brought new problems (for example unemployment, need for quick and radical changes in legislative system, education, health care etc., legitimisation of democratic regime, introduction of free market economy, and many others), so attention of scientists (not only sociologists, but social and political scientists) has been focused mostly on those problems. Of course other issues are also a subject of interest, but from what I have observed nowadays, music is a rather marginal topic.

As I said before, my PhD thesis is rather interdisciplinary. Although the method (IDI) is a typical sociological tool, the theoretical frames will be built on literature from various disciplines like psychology of music, pedagogy, ethnomusicology (and musicology), anthropology of music, and finally sociology of music and culture. Fortunately it is possible to find some polish publications concerning those disciplines. Moreover, there are a lot of scientific publications in English, which can be found in international journals (f.e. Psychology of Music, International Review of Aesthetics and Sociology of Music, Popular Music etc.) available on Jstor or EBSCO on-line platform.

Is there a political or philosophical line that you tend to follow when having these studies in mind?

That’s a very good question. Many people think that with their thesis they can save the world or at least solve for example, a problem of unemployment. To be honest the goal of my thesis is purely scientific. However, my research deal with many subjects. One of them is music education. For more then 20 years it is a well known fact that the quality of music education is getting worse. It is obvious that it will show how music education in secondary schools look like from the adolescents’ point of view. Maybe it will bring some ideas for changes in the music education system, especially in the field of teaching about classical music. Some recent researches have shown that more then 50% of teenagers want to be more competent in the knowledge of classical music. Therefore maybe my research will bring answer to some practical questions, like for example, “How to teach classical music to make it attractive for youngsters?”, or “Should classical music be presented to the students in the same way as popular music?” and so on. There is a high probability that this research will uncover other useful information, but now – those related with music education seem to be the most obvious.

What’s the thesis that you want to prove / refute?

At this point, I am at the very beginning of my project. It will take me about 4 years to finish it. However, for the interview I had prepared a project underlining the main fields that will be explored in my research. There are three main issues:
1. Music preferences (preferred kind of music, artists, music style; their attitude towards verbal meaning of preferred songs / artists etc.)
2. Participation in music culture (when do they listen to the music? is music an important value in their life? which forms of music participation do they prefer? etc.)
3. All factors that determine and influence on music participation and life style: family, school, friends, media (especially Internet and TV) and economic condition (material status) of each individual.

Of course, even now I have some hypothesis in my mind, but still I need to broaden my theoretical knowledge and analyse the results of the empirical studies (made since 1970’s). After that I will be ready to propose proper hypothesis.

Did you pick the same theme in your master’s to study too? What was the subject and the name of your master thesis?

No. The subject of my MA thesis was “Students participation in Erasmus programme and mutual perception of representatives of different cultures (Polish – Portuguese).”

If it’s different of what you’ll do for the PhD, why is that so?

I changed to a subject of my interest. However, it doesn’t mean that I left behind my enthusiasm for Portuguese culture. The thing is at the moment I see no point in continuing this research. Although the relation between Poland an Portugal (not only Erasmus exchange) are increasing, the aren’t yet so intensive to do, for example, a quantitative research on a large scale. But yet, I am still observing this relation, and who knows, maybe one day I will make another research.

Was was the method you used to research for your MA?

For the empirical part I used the In-Depth-Interview. The mutual perception of Polish and Portuguese people has never been a subject of empirical studies in Poland. That’s why I wanted to obtain deepened and detailed information and options. For those reasons IDI seemed to be the best choice.

What were the greatest hardships and satisfactions you had while developing your MA thesis?

The greatest hardship was finding Portuguese students here in Poland. I wanted to have a “sex balance” in my sample and while searching for female respondents from Portugal I discovered that mostly boys are coming to Poland for Erasmus exchange. The greatest satisfaction was (and in fact still is) that my research is somehow “pioneering” – no one before had made such a study.

Was it easy to meet the deadlines? :-)

It is a little bit funny because the tutor of my MA thesis has never established any deadlines. I set deadlines for myself :)

How many people worked with you in it?

I had 9 respondents, but I used only 8 interviews for my thesis.

What were the conclusions you got from it?

The main findings are related to similarities and differences between Polish and Portuguese from the point of view of Erasmus students. Briefly, according to students, both nations are very similar in the way of seeing family in their life (important role), role of religion, and also both nations seem to treat their own country and work as important values in their life (also family is one of most important ones). The biggest differences have cultural backgrounds – different life style, different habits.

Did these results confirm or refute the idea you had in the beginning?

I had a lot of conclusions/findings after my stay in Portugal (from what I have observed), so before I have started my research I was expecting that what make a great difference between both nations is culture (especially life style). On the other hand, I was aware of some “core values” in both cultures which are more or less the same in Poland and Portugal – the great importance of family and religion and easily visible strong attachment to their own country and national culture (deep and strong national identification).

What was (or is) the main contribute of your research?

I think that the main contribute of my research is that I aroused (a little bit) people’s interest in Portuguese culture, and interrelations between Poland and Portugal. Once, I was at scientific conference where, apart from talking about my own research, I was presenting a reception of Polish culture and history in Portugal. For most of the Poles, Portugal is terra incognita. I was trying to show interesting facts and findings about both countries and their relations.