THAT’s what I mean

Glenn Greenwald entrevistado por Alberto Dines. Caso Snowden, espionagem do Brasil, seus planos pós-Guardian. Uma das coisas mais legais que vi por aí nas últimas semanas. Vale a pena ver e rever.

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Ainda sobre gordura

Aqui, a íntegra da entrevista que fiz com Dirce Sá Freire, psicanalista e historiadora, especialista em transtornos alimentares. Foi colunista do programa “Perdas e Ganhos” da GNT, e me foi indicada pela Mary del Priore (sim, ela mesma). Há mais coisas interessantes sobre esta conversa que a gente teve na matéria que saiu na edição de Fevereiro da ComCiência, “O gordo, o belo e o feio: o embate entre obesidade e padrões estéticos“. Tópico super interessante que rendeu uma entrevista bem bacana.

De onde ou o que você vê como o fundamento social da lipofobia? Por que a gordura é tão execrada e a magreza extrema, tão valorizada? Acha que é uma forma de controle social? (lembrando aquilo que você aponta no seu artigo como uma transferência de aprisionamento – das restrições sexuais passou-se a ter a restrição ao apetite. Lembro que em “Fat History”, Peter Stearns também fala disso e meio que diz algo como “se a sociedade não inventasse a ditadura da magreza como forma de restrição, inventaria outro dispositivo restritivo para manter a ordem social”. Qual a sua opinião sobre isso?). É uma forma de massificar o controle dos impulsos?

A lipofobia trata do horror que a sociedade atual desenvolveu em relação à gordura, uma vez que o social desqualifica aquilo que está “fora da curva” ideológica, ou melhor, fora dos padrões ditados pela ditadura da magreza. A contemporaneidade, como toda sociedade, não valoriza aquilo que abunda, ou que sobra… Muito pelo contrário, o que continua nos regendo é a lei da oferta e da procura. A comida não é valorizada, já que atualmente o acesso ao alimento é das coisas mais fáceis que encontramos. Na Idade Média, quando não havia o que comer, o alimento era considerado uma “benção divina”, pois era ele que evitava a grande mortandade que marcou esta época. Não havia nenhuma valorização do corpo magro porque ele era sinônimo de escassez, de sofrimento e de morte. Valorizamos aquilo de que não dispomos. E hoje o acesso ao alimento é uma conquista e a gordura uma conseqüência desqualificada. É condição do humano almejar o que não tem, fazendo emergir o desejo e permitindo que este processo seja o propulsor da dinâmica da vida .

Quanto à frase “se a sociedade não inventasse a ditadura da magreza como forma de restrição, inventaria outro dispositivo restritivo para manter a ordem social”, acredito que seja necessário ampliarmos um pouco o conceito de obesidade. Precisamos lembrar que a obesidade é uma doença, que foi reconhecida pela OMS, em 1985. Esta é considerada hoje uma doença crônica que provoca ou acelera o desenvolvimento de muitas outras doenças e que causa a morte precoce. Ela acomete uma grande proporção de pessoas, e no Brasil 50% da população adulta tem excesso de peso. Esta é  uma doença multifatorial, pois o organismo humano é o resultado de diferentes interações entre o patrimônio genético (herdado de seus pais e familiares), o ambiente sócio-econômico, cultural e educativo, e last but not least o ambiente individual e familiar.

Muito interessante também aquilo que você coloca sobre contenções psicológicas – e a necessidade de haver limites na vida do filho, de como ele precisa da mãe como alguém que olha por ele e dá significado à existência da criança em seus primeiros anos de vida. Mas uma coisa: essa visão de que o problema da obesidade pode estar na infância não fomenta preconceitos contra os gordinhos também? Quero dizer que, quando a gente olha pra uma pessoa gorda, acha que ele ou ela tem um problema psicológico incontido ou esconde uma tristeza em si que acaba transparecendo no seu “descuido” com a forma física. Você não acha que tratar a obesidade como um problema psicológico não poderia colaborar para perpetuar a ditadura da magreza e acentuar a dificuldade de convívio com a diferença (mesmo embora comprovadamente muitas pessoas tentem preencher um vazio com a comida, não estou negando isso)?

Pais negam doce a um filho diabético, mas não o fazem quando um filho obeso faz o mesmo pedido. O motivo dessa diferença de comportamento deve-se ao fato da obesidade não ser vista como doença. Tal como a anorexia e a bulimia, a obesidade também é uma doença regida pelo mecanismo da recusa do limite, numa incessante busca pelo prazer… sem limite. Por isso podemos dizer que os transtornos alimentares apontam na direção da dificuldade que o sujeito pós-moderno tem de se organizar em torno do limite, em torno da lei ou, de forma mais objetiva, em torno do “não”. Mas podemos afirmar que a Obesidade não é falta de vergonha na cara, não é falta de caráter, e também não é falta de força de vontade, é uma doença crônica, grave, que precisa ser tratada no âmbito do patológico e não segundo um ponto de vista moral, onde só resta ao gordo a alcunha de sujeito “sem educação”. O problema psicológico do gordo é conseqüência e não causa da obesidade. Mas, independente da importância das diversas causas que explicam a obesidade, o ganho de peso está sempre associado a um aumento da ingesta alimentar e a uma redução do gasto energético correspondente a essa ingesta.

Gostaria que comentasse esta passagem do seu texto: “O mal-estar contemporâneo está caracterizado por uma rejeição aos processos de singularização – também presente nos pequenos cuidados e atos cotidianos –, que contam com o apoio da tecnologia de sentimentos e comportamentos. Mas não basta dar comida, é preciso que a criança se sinta vista em suas necessidades: de comer, com certeza, de ser levada ao dentista e ao pediatra, mas, sobretudo, de sentir-se amada, porque os afetos precisam estar minimamente garantidos.”

Existe hoje uma tendência à homogenização em função da dificuldade do homem de lidar com as diferenças. Então tratamos de pasteurizar e diminuir a importância das singularidades. As marcas corporais representam a ilusão da ruptura com a ordem simbólica, o sonho de uma essência totalmente naturalizadas. A pressa dos tempos modernos estão levando ao fim dos rituais. Sem ritual o homem tem dificuldade para compartilhar. O ato de comer é fundamentalmente uma forma de compartilhar. A relação com a alimentação expressa os afetos presentes nos vínculos familiares, sobretudo na ligação de mãe e filho! O alimento é uma forma de afeto. E os afetos expressam a forma como o sujeito foi acolhido no mundo, ou melhor, a forma como ele foi alimentado, no sentido mais amplo e no mais restrito do termo, nos primórdios da vida psíquica! Todos os portadores de transtornos alimentares mostram dificuldades com os afetos, portanto nas relações em geral. Para melhor ilustrar podemos pensar no exemplo da anorexia, onde o fato de deixar de comer pode simbolizar a desistência da anoréxica pela mãe e também sua hostilidade em relação à mãe… O inconsciente quer se libertar da mãe devoradora, superprotetora que nutre e protege demais… sempre tendendo para o excesso… Para tornar-se independente, a jovem anoréxica pode decidir não nutrir-se desta mãe simbolizada pelo alimento e por não expressar seus temores e traumas infantis, prefere fechar a boca tanto para falar como para comer… Processo similar invertido, ou melhor, reativo, acontece com o gordo,  que precisa “engolir” a mãe, às vezes precisando desenvolver o que chamamos “um corpo para dois”.

O corpo é um símbolo social, mas será que estamos criando uma hiper-simbolização desse corpo, quando ele passa a não mais remeter para algo externo a ele e sim ser um fim em si mesmo, esvaziando-o de sentido?

Com certeza o corpo está super-investido, por isso ele deixa de ser um instrumento e se torna um objeto de consumo, pois a crença atual é de que há possibilidade do corpo ser dominado/domesticado para melhor expressar aquilo que se quer aparentar. O corpo é considerado hoje um bem de consumo que se confunde com “capital”, que lhe dá expressão. Acredita-se que devemos investir cada vez mais para se retirar dele tudo aquilo que a ilusão presente no consumismo promete. A sociedade do espetáculo valoriza de tal forma esse capital, que ele atinge um tão alto grau de acumulação que finaliza por tornar-se a imagem do desejo do sujeito pós-moderno. Seria a busca de um sentido para a vida que moveria o sujeito, mas o grande abalo dos valores tradicionais e a relativização da importância dos rituais em particular está na base da epidemia da obesidade. Por isso os transtornos alimentares são a expressão no corpo da dificuldade do sujeito pós-moderno lidar com os limites.

É possível ser feliz, saudável e ser gordinho ao mesmo tempo? De que maneira pode-se oferecer resistência aos padrões? O problema está na nossa relação com a comida? Se ela fosse vista como algo menos funcional e mais prazeroso, isso poderia ter algum impacto positivo, na sua opinião? 

Pode-se ser feliz, saudável e “gordinho” ao mesmo tempo, mas gordinho é diferente de obeso. A questão importante é que o gordinho parece estar fadado a tornar-se um obeso. E obesidade é uma doença grave que leva a morte precoce. Resistir aos padrões é, em última instância, aceitar a diferença como algo que faz parte da vida, mas que é dos maiores desafios que o ser humano enfrenta ao longo de toda sua vida. O problema da nossa relação com a comida passa necessariamente pelos afetos, pois o alimento é uma forma de afeto, pressupondo que a relação com a comida deve ser prazerosa, mas como toda sorte de prazer, esta também precisa de limite. O ser humano necessita do prazer para sobreviver; e a alimentação deve ser uma das fontes principais de prazer para o homem. Prazer pressupõe limite, senão fica no nível do gozo e aí o humano se perde, já que o locus do gozo é o da sexualidade. Para isso importa muito considerarmos que o objetivo do trabalho psicológico/psicanalítico é ajudar o paciente a internalizar a necessidade e a importância do limite e da lei.

Another one!

Por falar em velharias a desenterrar e colocar aqui – agora não tanto em forma de texto, mas em vídeo – há mais um que quase me escapa: uma tentativa de video-reportagem sobre um evento acontecido há exatos dois anos (e, nenhuma novidade, é sobre ciência – e crianças!). Tem alguns efeitos indesejados (culpa do MovieMaker!), mas foi gostosíssimo de fazer, editar, narrar, filmar, etc. Mas sinto que preciso voltar pras minhas aulas de TV. :-)

Outra pérola

Tal como a de setembro passado, uma pérola, sim. Mas dessa vez, vinda do espaço: “8 motivos para estudar astronomia”, do Educar para Crescer.

Muito bom a gente escrever sobre o que gosta, falar das coisas que admira e sobre as quais se quer aprender mais. Bom sentir que a gente contribui para dar melhor a conhecer algo em que – outra vez – a gente realmente acredita, seja arte ou ciência. Cara, muito bom. Mesmo. :-)

Mais textos, mais palavras

Naquele exercício de juntar e guardar mais textos que a gente escreve (e às vezes se esquece de que escreveu), aqui vão três para constar: uma crítica do lindo Casa de Areia, de Andrucha Waddington – tempos depois do meu tempo de Jornalismo Online no UNI-BH – e, na mesma vibe, algumas notas sobre a vida do nada menos que genial Ingmar Bergman. E adjetivos estão na moda, note-se bem. Economizá-los quando se fala de filmes como Morangos Silvestres e Através de um Espelho pode ser sinal de miopia estética (ou não. Afinal de contas, isso não é uma questão de optometria artística, e ainda bem).

Bom, e o outro texto, o terceiro, é uma contribuição dada à versão digital do Jornal Universitário do Porto. E isso já vai algum tempo, como era de se notar. É a versão original da entrevista que fiz com o jornalista Ricardo Pereira durante os dias quentes e agitados do Festival Internacional de Jornalismo em Perugia, na Itália. Uma experiência que ainda espero repetir.