Distilled pain

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Nada a acrescentar

a uma fala que tudo resume.

Essa semana se falou muito da Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento editorial do mundo. O país homenageado foi o Brasil. Nada mais coerente que a contundência do mineiro Luiz Ruffato em mostrar uma fotografia do país no discurso de abertura. Os tradiças ficaram chocados, Ziraldo passou mal e mandou Ruffato calar a boca: se acha o Brasil ruim, “que se mude!”. Mas não é tão simples assim. A filosofia do ame-o ou deixe-o ficou, ainda bem, para trás de nós. Bem para trás da minha geração. Temos liberdade para discutir nossos próprios problemas e de pensar como resolvê-los. Mas temos medo. Medo do confronto, medo de nos olhar no espelho. Isso incomoda e dói, quase tanto quanto sentar num divã e começar a desfiar medos escondidos, vícios, psicoses e problemas mal-resolvidos. Isso não é gostoso e não dá prazer, mas é um enfrentamento necessário para uma vida melhor, mais completa.

Roupa suja se lava em casa, mas a academia claramente não está dando conta do recado. Por isso achei genial a fala do Ruffato, que precisou estar longe pra ser ouvido aqui dentro (síndrome de vira-lata?). Espero que haja mais repercussão do que pessoas aplaudindo ou jogando pedra. E sim: se um livro pode mudar a vida de uma pessoa, a literatura pode mudar uma sociedade. Linda utopia pra se defender.

O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em
dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

Steps of a perpetual dance: sound, silence and noise

On a given Sunday night, January 18th 2004, the spectators that filled the Barbican Hall in the British capital could presence a memorable performance of the BBC Symphonic Orchestra: musicians ‘en garde’, fingers over the piano, extended arches and eyes in the conductor, who, curiously, starts to count the minutes in a clock. An anxious silence of suspended breaths fills the room. It’s only broken with the coughing that follows the turning of a page in the sheet by the people on the stage in order to give a start to the second movement. And so it is in the third. Four minutes and 33 seconds later, the public’s ovation. They had just experienced one of the most emblematic compositions of the contemporary erudite music, 4’33”, which had, in that night, been televised for the first time since its conception, around half a century earlier, by artist, theorist and composer John Cage.

According to critic Alex Ross, author of The rest is noise: listening to the twentieth century and Listen to this, Cage was to the second half of the last century what Schoenberg was to the first: the latter with his pioneerism in defending the emancipation of dissonance and experimenting atonality (non-linearity among notes that should repeat in a melody, bringing some ‘comfort’ to the listener and the ‘resolution of conflict’ to a piece); and the first, with his performances and improvising with his ‘prepared piano’, in which objects were put amidst its strings so they’d produce different sounds. Although Cage had been a Schoenberg pupil in his youth, Oriental music is the most remarkable influence in his work – and, being so, it wasn’t strange that he considered music, noise and silence were all part of an inseparable profusion. “Sound should present itself devoid of human interference. 4’33” ends up being an anti-egoic manifesto in this sense”, observes Pauxy Nunes, Composition professor at the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ).

William Brooks, researcher at the universities of York and Illinois, says Cage didn’t believe in the existence of absolute acoustic silence. “The experience that nourished this disbelief was his passage through an anechoic chamber in Harvard University”, where, even in a soundproof environment, he could still listen to the low sound of his blood circulation and the high sound of his nervous system at work. “I think in his mind there was a kind of distinction between silence as a real absence of acoustic stimulation – and this was what he said that didn’t exist – and silence as a mental state – and this, I believe he’d have said, especially in his last years, that did exist”, he ponders.

Sound versus silence, Brooks recalls, might not be a binary opposition. “The opposite of silence is not necessarily sound, from a musician’s point of view: there’s a kind of triadic opposition that exists between silence, musical sound and noise. The two last have duration in common, whereas silence is only duration”, he points out. He says that, under this point of view, silence has become a metaphor, a description of a mental state in which nothing is privileged and in which one is open to anything around.

In his book O som e o sentido: uma outra história das músicas, composer José Miguel Wisnik corroborates with this idea of silence as non-diferentiation. He writes that, as in the example of Newton’s disk, that makes all colors fuse into white as it gains movement, “the total sonorous is silence” because it is the “matrix of all possible communication, of all canalization of whatever message it is, the matter of all sonorous landscapes, frequency of frequencies, pulse of pulses, noise/zero”. Silence is, under this point of view, filled of sound in its essence. On the other hand, Wisnik reminds, “there’s no sound without pause. Our eardrum would go into spasm. Sound is presence and absence and is, for the least it looks like, drenched with silence”.

And the frontier between silence and noise is found in a horizon continuously fluid and less easily prone to be set boundaries in. Brooks reminds that, in the past century, people would throw a kitchen sink at a drum set in order to produce sound in performances. “Historically, the limits (between sound and silence) is kept in constant movement. In a broader sense, the tendency has been to become more inclusive. There are less and less sounds that can be taken as noise, non-musical or not appropriate to a musical continuity. In Cage’s work, for example, there’s no noise and music, only sound”, he observes.

However, the American performer wasn’t the first to blur the limits between silence, noise and musical sound. “After the Industrial Revolution there were people who did it already”, Pauxy Nunes tells. “They took machines on stage and did concerts with turbines, for example. That, at the time, was avant-garde in its extreme”, which ended up giving birth to electronic music as we know it today. A name that became known for such practice and is considered one of the precursors of futuristic music is the painter and composer Luigi Russolo, who wrote the manifesto The Art of Noise in 1913. It wasn’t unusual that his audiences got shocked with the sound of valves and engines he used in his performances: all in all, it was just pure noise. Which is split from sound, according to William Brooks, by absolutely social, historical and social criteria. “There’s no physical property or a priori to establish a difference between both”, he notes.

But, even being so, there’s no way out from certain definitions, which serve as a starting point to analysis. Pauxy Nunes says that the classical conception of noise encompasses undesirable sound, “which conveys something that doesn’t translate a style or practice, that doesn’t fit a defined melodic height”, and which, even having been historically avoided by the classic canon, has always had its space, even if peripheral: “In the 20th century, it was either avoided or used as a kind of slight ornament, as if it were a different color, in painting”, he says. Changes in philosophical thought and the upcoming of Psychoanalysis made noise, then, start to equate to the desired sound. “It’s an element that emerges and starts to pair up with melody”, according to the researcher.

Whereas noise is disturbance to the canon, silence is classically considered as a negative value, a “background over which music is outlined, a blank canvas”, Nunes observes, “but these same changes in Western thought were responsible for making this background start to gain a value in itself – like in Painting, in which the white canvas becomes as a relevant element as the dye”, he compares.

And we cannot forget that, though sound, silence and noise have their musical implications and give room to philosophical and technical discussions, they also have deep social implications – sometimes manifesting themselves not just as metaphors. Or, as Jacques Attali holds up to view in Noise: the political economy of music, silence as non-diferentiation manifests itself in contemporary society in the production and consumption of goods, and where “unanimity becomes the criterion to beauty” and all surfaces need to be smooth and polished. Hence the importance of noise, of the rituals of parties and carnivals, he says. The breaking of uniformity inverts hierarchies and gives a glimpse of the strings that manipulate power behind them. Noise, in this sense, is quite far from being a social disturbance.

(The original version, in Portuguese, has been published here)

Vinicius, um “cat” de primeira

Imagem: Companhia das Letras

Sem precisar me rasgar de elogios ao poetinha, mas esse livro, em formato de um EP antigo, é uma delícia, de se ler numa sentada. É uma reunião de textos e poemas que ele escreveu pra revistas como Flan e Sombra enquanto ocupava seu primeiro posto diplomático, em Los Angeles, entre 1946 e 1950. Na escrita, não deixa dúvidas de que era um “cat” (ou fã incondicional de jazz, na gíria dos EUA dos anos 40) que entendia do assunto, contando as coisas daquele jeito gostoso carioca de ser.

O livro é datado, sim, mas leve, também, e irônico, mais ainda. E mostra, principalmente, uma percepção não apenas sobre o jazz, gênero pelo qual Vinicius era aficionado, mas muito sobre a vida dele enquanto vice-cônsul brasileiro na terra de tio Sam, onde andava sempre bem acompanhado. Sua amizade com gente do calibre de Sarah Vaughan e Orson Welles deve ter facilitado bastante a convivência no meio daquela “sensaboria” da vida americana em fins de anos 40 e inicio de 50. A maioria dos jazzmen não fazia parte daquele clube de gente “self-satisfied” com que ele se deparou ao longo da sua estadia: era gente cuja cabeça estava sempre fervendo com novas notas e novas melodias, e, não raro, estavam muito à frente dos preconceitos de uma sociedade segregacionista que respirava o mccartismo. O jazz dava fôlego para nadar até a superfície daquilo tudo, respirar e voltar (imagino o quanto de oxigênio não deu pra absorver numa jam com Louis Armstrong e Benny Goodman no meio!).

Falando em segregacionismo, é particularmente interessante o texto de abertura, que fala sobre a origem do gênero. O negro assume o papel central na mistura e com ele nasce o improviso, fruto da adversidade em que vivia, e infelizmente essa parte da história a gente também conhece bem. “Desde a sua chegada, o negro é o mais ofendido e o mais humilhado dos habitantes da América”, lembra o poeta. De ponta a ponta do continente. Privados do direito de ser, de estar, de conversar entre si.

Proibidos de falar, cantavam. Cantando começaram a se comunicar uns com os outros. Todo um código vocal nasceu dessa limitação da necessidade de falar, hoje perdido, mas cuja história chega até nós. Foi este um dos sinais de revolta que nunca mais abandonaria o povo negro nos Estados Unidos. Quanta conversa de amor, quanta senha de aviso, quanto plano de fuga não deve ter corrido a pauta invisível estendida sobre o algodoal em flor! Que poder de inflexões novas não se devem ter acrescentado à voz crestada de sofrimento e revolta, nos solos, duetos e coros campestres!

E por aí vai a história, que se desenrola começando por uma New Orleans que juntava gente de todo tipo e de todo canto. Deu no que deu. Legal também são alguns paralelos, bem pontuais, que Vinicius traça com o samba daqui debaixo, com a bossa nova. Ou a sua “definição” de jazz ou suas farpas e elogios a jazzmen da época. A ideia não é fazer um tratado sobre o assunto, é juntar paixão em prosa e poesia num livro bonito graficamente, ricamente ilustrado como um álbum de fotos.

E sim, ter o poetinha como guia nessa pequena viagem é uma delícia.

A post-it on the art of writing

When you read a good piece of writing and you want to keep it close to your eyes or simply don’t want to lose track of it, maybe a good thing to do is also (maybe) the simplest thing to do: write something down about it, highlit it, staple a post-it on it ‘till you’ve got it swallowed down. [And when you think it’s really gold, please share it]

As I was reading some notes on some very touching (and useful) Hemingway’s advice on writing, just got caught with stuff to think for a good deal of days ahead. It definitely deserves a highlight. You might know how to be clear and concise, you might know how to make the good questions to get a good story. But that’s never enough (and I don’t see a reason why it should be) and you might start worrying that being good enough is not good enough. You want your voice to stand out from the crowd, you want to do something meaningful, you want people to see how refined your skill is, how long and how hard it took you to craft it. And how you still painstakingly work on it. And then you might get it a little wrong, lose balance and become what in this excerpt Hemingway qualified as an owl. “A writer who appreciates the seriousness of writing so little that he is anxious to make people see he is formally educated, cultured or well-bred is merely a popinjay”. And become a lover of the epic. Of the hazy, complicated, mistifying words in complicated structures of an epic. And then a good thing to remember is that

“All bad writers are in love with the epic”.

Not the epic as the epic itself, but the grandeur of the thing, the necessity of building imaginary castles to adorn your art. And it makes a lot of sense from this what he said. And what he wrote. He could portray the epic without falling bewitched by it. Maybe he needed not to be in love with it in order to get us this sense of epic in his writing. Something to bear in mind.

And another thing, maybe as important as keeping your feet on the ground is, of course, showing up for the work. That sieves job from hobby. Deadlines in this sense are a great reminder of what’s the difference from one to another, but the good thing is not always to rely on them. Ideas live better when they have space to breathe and don’t have to be smashed or trimmed by tight deadlines. And you can usually gild them by powdering a little with some gold you find along the way, learning from who’s been there. But the best thing is to keep them moving. After all, ideas have a life by themselves and like to walk, run and fly over rooftops.