Um chá quente e um abraço

Parafraseando os caras do LCD Soundsystem,

“Dear world, I love you, but you’re bringing me down”.

Hoje é um desses dias em que você só precisa de um chá quente pra esquentar o corpo e um abraço forte pra aquecer a alma. 

Ebola, Palestina x Israel, Robin Williams (essa foi forte), famílias da Granja Werneck, essa do Eduardo Campos agora… 

Tá difícil fazer funcionar o raciocínio instrumental de sempre. Em dias como esse, a gente se sente um pequeno monte de merda por não fazer nada – e não acho que posso culpar a TPM por esse “excesso” de sensibilidade. Já fui diagnosticada com “sensibilidade aguda” clinicamente, whatever that means. Vou dizer que a gente tenta manter uma atitude positiva, mas às vezes perde o rebolado, não é tão fácil. 

Precisaria ter um coração de qualquer coisa não-biodegradável pra achar que tudo seria fácil, sempre. Que daria pra ver tudo pelo lado ensolarado, sempre. Não dá. Do mesmo jeito que não dá só pra enxergar céu nublado e chuva todo dia.

Mas ainda bem que as oscilações existem.

E os abraços e os chás quentes pra aguentá-las.

Rambling on

Tanto tempo sem escrever. Pelo menos aqui, pelo menos pra falar bobagens aleatórias.

E bobagem mesmo. Como, por exemplo, sobre o rei do camarote que causou tanta polêmica, tanto furor e tantos memes nas redes sociais por aí. Confesso que fiquei com muita preguiça de ler comentários, compartilhar coisas, dar curtidas. Mas, incrível, o Ibope que dou pro moço vem por aqui. Mas não dá vontade de chover no molhado e debater sobre se é imoral alguém gastar R$50mil numa balada ou comprar Veuve Cliquot pra lavar o chão do camarote. O que merece comentário, isso sim, é que faltou ver que o personagem da matéria, na real, tem uma tristeza inconfessa (mas visível) nos olhos. Não sei que tipo de vazio preenche a existência dele. Mas deu pra perceber, fácil, pelo vídeo, que o tal vazio existe. E transborda. De insegurança também. Imagina uma pessoa na casa dos 40 contando que até já transou no banheiro da balada, como se isso fosse um triunfo, ‘coisa que ninguém faz’. Ninguém sabe o que passa pela cabeça dele quando ele se olha no espelho ou se deita sobre seu travesseiro de penas de ganso – mas talvez um analista, desses bons, pudesse ajudar ao próprio Almeida a fazer isso. Se pudesse, daria um conselho: fiquei sabendo por alto que uma sessão com o Contardo Calligaris pode girar em torno dos R$700. Meu caro, uma única balada cobriria com folga quase um semestre de terapia (embora esse não seja o problema, claramente), com sessões três vezes por semana. Não é beber vodka, mas é um investimento de retorno em longo prazo que certamente vale muito a pena. Just sayin’.

***

E já que é pra falar bobagem, dias atrás esbarrei num vídeo em que um racista, defensor da supremacia branca Craig Cobb aparece em um talk show e descobre que tem 14% de DNA africano, sub-saariano, no seu pacote biológico. Claro que é uma cena engraçada. Mas pode deixar de ser quando se parece dizer a um sujeito “heeey, look at you, you’re lame too!” – um tipo de racismo, talvez, só que ao contrário. Mas é óbvio que o cara é absolutamente ridículo e não deve ter estudado história (ou finge não se lembrar que muitos de seus compatriotas perderam a vida tentando erradicar a suástica que ele orgulhosamente ostenta na porta de entrada de sua casa). Enfim.

***

Outra bobagem menos aleatória, talvez, é a impressão de um artigo que li na Atlantic, ‘Paris was my middle-school classroom‘. Muito bem escrito (já tinha lido outro artigo da mesma Tara Burton, muito interessante, sobre os motivos para se estudar teologia mesmo sem acreditar em nada. Tá circulando em algum lugar no fundo da caixola), traz algumas ideias interessantes sobre homeschooling e o que significa se educar fora de rígidos padrões de medição de ‘sucesso’. Já venho pensando nisso faz tempos, mas algo que me bateu mais forte que isso foi a impressão de que uma boa educação, institucional ou autônoma, depende muio mais de sorte e de se aproveitar boas oportunidades na vida do que de qualquer outra coisa. Mas nem todas as pessoas as têm. Claro que bate um pouco de ressentimento com a pessoa esfregando no seu nariz um ‘veja que legal a adolescência que passei andando de bicicleta pelo Quartier Latin, lendo clássicos franceses e traduzindo Cícero’ e coisa e tal, e o acesso a materiais de qualidade e experiências ricas (embora não fossem garantia de que uma pessoa vá se beneficiar apenas pelo mero acesso) foi determinante na experiência da autora. Foi só estender a mão, pegar e fazer bom uso, a coisa já estava lá. Não dá pra achar que o sistema meritocrático tem uma base sólida e racional pra funcionar. Estamos carecas de saber que as pessoas não começam o jogo do mesmo ponto de partida (e muita gente nem mesmo está no jogo). Enfim, mas não é esta a questão. A questão é que não se pode é se basear em experiências completamente fora da curva, como esta, para exemplificar que um sistema como o homeschooling funciona de fato. Mas que, funcionando ou não, seria legal que cada pessoa tivesse condições de estabelecer os próprios medidores de sucesso, adaptados aos objetivos que se tem na vida. Com uma colher de ouro servindo mingau na boca ou não.

Blah blah blah

Pra colocar um marcador em algumas coisas que me passaram pelos olhos esta semana, só pra não perder de vista mesmo:

– Na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira, vimos uma Dilma emputecida pela violação da privacidade nacional, discursando diretamente para o colega Obama. Visita de Estado cancelada, relações diplomáticas balançadas. E a aparente pressa em se resolver questões sobre o marco civil da Internet é algo que os brasileiros precisamos seguir de perto, ficar de olho mesmo.

– E ainda, em meio a todo esse imbróglio, uma repórter brasileira é arbitrariamente presa em Yale. É claro que é preciso outras versões da história pra se ter uma noção melhor de como e por que cargas d’água isso aconteceu. Mas não deixa de ser uma situação absurda, quase kafkiana. Bem, merdas acontecem.

– Por falar em “merdas acontecem”, um lembrete do IPCC, em duas palavras: estamos fritos.

– Menos urgente e bem menos grave, outra coisa que me chamou a atenção foi uma notinha que saiu na SciAm, “generosidade gera desprezo“. Dá pra viajar bastante pensando nisso (e nem é preciso ter uma mente muito fértil para tal, digamos), nas relações de poder que perpassam amizades, amizades coloridas, amor, desamor e coisa e tal. Da necessidade de se manter certas palavras e certos segredos, de não ligar pro cara no dia seguinte, de não colocar todas as cartas na mesa. Overdose de sinceridade is a killer. Mas uma coisa é certa: não é preciso ser um cuzão completo idiota para não “causar desprezo”. Se você é legal, por favor, recuse-se a se tornar um babaca em nome de mais poder na política de relacionamentos, quaisquer que sejam. Há que se recusar ser/tornar-se estúpido. Tem gente que é legal, generoso e atencioso por pura maneira de ser, ponto. Por que sufocar isso?

– Da série “delicadezas da escrita”, um conselho valiosíssimo sobre o bom escrever, de quem já esteve lá. E uma amostra de quem teve muitos bons conselhos e soube segui-los. Narrativa de perfil é mesmo uma coisa de extrema delicadeza. Deixa a vida mais leve.

Recapitulando

Ou, “dos textos que a gente guarda, mas devia deixar ver a luz”.

Procurando alguma coisa aleatória no meu GoogleDocs hoje – pra auxiliar num texto que estou escrevendo sobre música, ai, música – acabei achando um fragmento velho, datado com uns bons três anos de existência. Fez aniversário dia 19 agora. Tinha cara de texto publicado no blog, mas fui enganada pelas aparências, então resolvi dar um lugar pra ele aqui. Trivial, mas um pouco de saudosismo não faz mal a ninguém.

De novo, os pensamentos fitos no excesso, no descompasso. Só pode ser talvez colocado no passo se transbordar por palavras, e isso, assim como o sentimento que as leva para a tela ou um pedaço rasgado de papel, não é nada novo, embora também não seja nada demais. Mas enfim. Músicas realmente podem te fazer pensar. E muito. Lendo as palavras singelas e cheias de sentido de uma recém-amiguinha, me veio uma favorita de já algum tempo, escondida em algum lugar do meu repertório musical – cuja letra ajuda a resumir bastante bem algumas partes importantes desse penduricalho de ideias que dançam indefinidamente entre as quatro paredes dessa pequena caixola que sustenta essa vistosa cabeleira encaracolada. E, outra vez, uma ‘efervescência coletiva’ de ideias começou a espumar, apertando as paredes da garrafa para sair.

E então precisei concordar com um querido amigo meu quando me apresentou uma ideia meio mirabolante sobre o quanto as músicas podem ensinar várias lições importantes, e do quanto se pode assimilar conhecimento a partir delas, quase tanto e tão substancialmente quanto se faz com os livros. E se todos os livros fossem na verdade enormes letras de música (ou pudessem ser substituídos por elas)? Será que se aprende tanto ou mais com elas, palavras cantadas e tocadas, do que apenas com elas escritas? Talvez elas fiquem melhor gravadas porque se comunicam com a alma, com o hemisfério direito do cérebro? Que função essencial teria o prazer na apreensão das coisas que realmente queremos ou precisamos saber? Será que esse prazer seria uma espécie de contato privilegiado com a realidade que faz nascer pessoas e ideias extraordinárias? Não sei ao certo.