Das coisas que nos escapam

“Como lidar com o que nos escapa?”

Estar em um grupo de pesquisa onde uma pergunta dessas – das “perguntas impossíveis” que a gente usa pra pensar a crise (ou catástrofe) ambiental que atravessamos agora – é, antes de mais, um privilégio. E tem ecoado mais do que eu havia me dado conta de que poderia ecoar, ou ressoar, ou reverberar. Muito mais.

Chegar ao fim de um ciclo importante, que durou três (intensos) anos, tem me colocado essa pergunta bem na frente da cara, de novo. There. In my face. Uma pergunta da qual eu tentei fugir. Mas que me pega pelo pé quando penso no “tempo” como algo que “me escapa” – e algo com o qual é preciso lidar.

Acho que a maior lição do mestrado não foram as páginas de conclusão da dissertação, não foram os insights durante leituras, milhares de conversas ou mesmo a escrita (embora tenham sido essenciais no processo). O que mais aprendi, afinal, é que é preciso reinventar a relação com o tempo para que a relação com a própria vida seja reinventada.

Pode ser no sentido de ter mais foco, de ter mais comprometimento com os projetos e compromissos a que se propõe fazer, a ter uma rotina melhor organizada em redor de objetivos claros, sim. Mas, antes, tem a ver com a própria noção de tempo que se tem e de como se percebe a passagem dele. É o aqui e agora, o tempo que urge por um senso de realidade, de estar presente no presente? É a soma de passados e momentos que leva ao hoje – ou o futuro, sempre incerto? Ou nada disso? É aquilo a que Bergson chamou de “duração”? Não sei. Mas esses aspectos não se anulam – e há como inventar maneiras de lidar com eles. Reinventar o dia, reinventar os momentos, reinventar a nós mesmos, e achar que temos a capacidade de lidar com o tempo, por mais que isso pareça misterioso e assustador. Por mais que se pareça um poço sem fundo, um texto sem fim.

Talvez, afinal, o que tenha aprendido mesmo no fim desses três anos, é o seguinte: há perguntas das quais não se foge. Elas sempre vão atrás de você pra que você olhe pra elas na cara em algum momento. Elas também querem ser reinventadas.

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Nada a acrescentar

a uma fala que tudo resume.

Essa semana se falou muito da Feira do Livro de Frankfurt, o maior evento editorial do mundo. O país homenageado foi o Brasil. Nada mais coerente que a contundência do mineiro Luiz Ruffato em mostrar uma fotografia do país no discurso de abertura. Os tradiças ficaram chocados, Ziraldo passou mal e mandou Ruffato calar a boca: se acha o Brasil ruim, “que se mude!”. Mas não é tão simples assim. A filosofia do ame-o ou deixe-o ficou, ainda bem, para trás de nós. Bem para trás da minha geração. Temos liberdade para discutir nossos próprios problemas e de pensar como resolvê-los. Mas temos medo. Medo do confronto, medo de nos olhar no espelho. Isso incomoda e dói, quase tanto quanto sentar num divã e começar a desfiar medos escondidos, vícios, psicoses e problemas mal-resolvidos. Isso não é gostoso e não dá prazer, mas é um enfrentamento necessário para uma vida melhor, mais completa.

Roupa suja se lava em casa, mas a academia claramente não está dando conta do recado. Por isso achei genial a fala do Ruffato, que precisou estar longe pra ser ouvido aqui dentro (síndrome de vira-lata?). Espero que haja mais repercussão do que pessoas aplaudindo ou jogando pedra. E sim: se um livro pode mudar a vida de uma pessoa, a literatura pode mudar uma sociedade. Linda utopia pra se defender.

O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em
dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.

All watched over…

Uma série de documentários para rever de tempos e tempos, “All watched over by machines of loving grace” é uma trilogia produzida por Adam Curtis (que também fez o “The Century of the Self”) para a BBC Documentary Series, em 2011. A ideia principal é a de que o sonho da liberação humana através da cibernética, afinal, não foi tão bem-sucedido assim. O título é empréstimo de um poema homônimo de 1967, escrito por Richard Brautigan:

I like to think (and
the sooner the better!)
of a cybernetic meadow
where mammals and computers
live together in mutually
programming harmony
like pure water
touching clear sky.

I like to think
(right now, please!)
of a cybernetic forest
filled with pines and electronics
where deer stroll peacefully
past computers
as if they were flowers
with spinning blossoms.

I like to think
(it has to be!)
of a cybernetic ecology
where we are free of our labors
and joined back to nature,
returned to our mammal
brothers and sisters,
and all watched over
by machines of loving grace.

“Love and Power” trata da confluência entre a crença no individualismo exacerbado e selvagem (expresso pelo objetivismo de Ayn Rand) e a ideia de que os computadores e a cibernética poderiam ser instrumentos que permitiriam à economia enfim se auto-regular.

O segundo vídeo, “The Use and Abuse of Vegetational Concepts”, fala sobre como a teoria dos sistemas contribuiu para a ideia da natureza como ecossistema – e toda a noção de equilíbrio natural que vem com ela. O desejo da organização social em redes, livres de hierarquias, poderia ser viabilizado pela cibernética.

O último vídeo, “The Monkey in the machine and the machine in the monkey”, mostra como guerras étnicas foram geradas através da ideia de que o homem é um pacote de informações genéticas.

É uma crítica bastante interessante contra o tecno-utopianismo e o determinismo tecnológico que não apenas vê nas máquinas a salvação das mazelas da humanidade, mas, mais que isso, não nos deixa olhar pra dentro de nós mesmos em um espelho que não seja mediado pelas machines of loving grace — tentando mudar o mundo sem lançar mão da política.

Seguramente uma das coisas mais legais que vi no ano passado e que mereceu uma pincelada de marca-texto não só pra ajudar na pesquisa, mas de pensar pra vida. Daquelas coisas que você vê, pára, pensa, volta, vê de novo, anota, respira, chega no fim e só diz, “nú!”. Sem mais.

Sem interromper o coito, por favor

Agora sim, vamos falar de viagem. Há menos de vinte dias, eu voltava de uma. Dessa vez, foram cinco cidades em quinze dias. A matemática básica diz que isso equivale a um vôo a cada três dias. A não repetir.

Não que tenha sido uma viagem ruim: de jeito nenhum, muito longe disso (a não ser por dores de cabeça que a KLM me deu de presente, mas isto merece outro capítulo. E um longo). Tinha compromissos a cumprir, e acho que deu pra dar conta do recado. Revi amigos e conheci lugares, e isso foi a melhor parte. Mas não acho que viajar à japonesa seja meu estilo: afinal, sou devagar pra escrever, devagar pra comer, devagar pra acordar e até pra pensar, às vezes. Não sei de onde vem esse hábito de ruminar sobre as coisas (mineiramente?), mas isso não é lá algo contra o qual se possa lutar e brigar – ao menos não sem provocar um cataclismo existencial. Enfim: o que acontece é que, se a natureza não ajuda, a gente se força pra fazer as coisas depressa. E acaba acreditando nisso  de que dá conta. Mas aí você se depara com uma indigestão e vê que comeu tão rápido que o estômago acabou por não encher direito. Ou que gastou tanto tempo nas preliminares que na hora do vamo-ver a coisa acabou em coito interrompido.

– Que ficou, majoritariamente, por conta do Porto: dois dias e meio, em vésperas da festa de S. João, sem poder participar dela por ter que seguir viagem. Mas rever gente querida foi melhor do que eu podia imaginar. É ótimo ter aquela sensação de que o tempo passou, mas, afinal, não passou tanto assim: vão-se anos, mas parece que foram poucos meses. É como se fosse possível congelar e descongelar conversas e abraços. Deve ser a tal “amizade de baixa manutenção” de que um outro amigo falava dia desses. Poxa, como é bom saber como é isso. Essa (boa) sensação não valeu só pro Porto, mas também pra Madri, Birmingham, Amsterdam e Dublin, cidades que guardam gente bastante querida. A melhor parte disso tudo foi trocar impressões, dividir cervejas, vinhos, almoços, jantares, saídas, risadas e planos. Rever lugares. Conhecer os bebês dos amigos e vê-los sorrindo, felizes à toa (“springtime in Europe!”). Viajar à japonesa sem dúvida já teria valido a pena se parasse por aí.

Mas também tinha compromissos pra cumprir na agenda, e como disse, a impressão é a de que dei conta da coisa. Não extraordinariamente (poderia ter feito uma pesquisa e uma apresentação bem mais interessantes, mas vamo aí), mas foi. E foi. Uma semana em Dublin se resumiu a quase uma semana na DCU, trocando ideias, ouvindo, falando. Mas senti que foi um pouco difícil alcançar as pessoas. Os colegas engravatados da Communication Research me fizeram lembrar e (cara, que estranho) sentir  um  pouco de saudade da Assembleia Geral da IAU no Rio, em 2009, exatamente por serem (pra  usar um termo bonitinho) antípodas: quase todo mundo de camisa pólo, shorts e meias acima das canelas, bem mais abertos a trocar um ou dois dedos de prosa. Com gente tão simples quanto os caras que votaram para tirar Plutão do Sistema Solar (despojamento, sabe?). É claro que não ter um paper pra apresentar ajuda a aliviar a pressão e te faz sentir bem mais à vontade – e ser diferente, ou no caso, não-cientista fodão, também ajuda bastante. Mas não é o primeiro congresso de que participo na minha área e é aquela mesma impressão: as pessoas poderiam ser um pouco mais comunicativas (que paradoxo), não no sentido literal da coisa, mas, sei lá, fazer-se mais “aproximáveis”. We’re all on the same boat, n’est ce pas? Sei lá, talvez eu também estivesse um pouco arisca. Mas enfim. Sem paradoxos a vida não seria um negócio tão interessante.

Por falar em paradoxos, percebi que, em muitos lugares por onde passei no Velho Continente, a crise tá feia. Aliás, continua feia e mostrando os dentes. No P e S dos PIGS, o desemprego não mostra sinais de baixar (a quase 20% em Portugal e mais de 25% na Espanha – e a impressionantes 43% para pessoas com menos de 25 anos só em Portugal) e na Irlanda a coisa parece ser mais branda, a cerca de 14%. Não que seja pouca coisa, é só menos pior (pra se ter uma noção, o Brasil, há bem pouco tempo, tinha menos de 6% de desemprego, com “pleno emprego” em algumas partes do país – Minas entre elas). Enfim. O paradoxo é que a qualidade de vida continua boa. Com um pouco mais de medo e desconfiança, é verdade, mas boa (não, e não vou comparar com o Brasil porque essas coisas não têm sentido. Não tá tão ruim assim e pronto). Pra quem tem emprego, nem que esteja por um fio, claro. Outro paradoxo é que, enquanto rolavam manifestações contra a austeridade pipocando pelo Velho Mundo e inundando a rua Augusta, em Lisboa, e a Av. dos Aliados, no Porto, por exemplo, eu estava acompanhando a coisa, de longe, no meu desassossego paulista, torcendo pelos de lá. E quando começaram as manifestações do lado de cá (destino, seu fanfarrão!), eu estava do lado de lá torcendo pelos amigos que cá estavam na rua. Pelo menos antes de a coisa degringolar e descambar para a zoação. Em tempo real via wi-fi. Enfim. Mas é bom ter essas histórias pra contar, nem que a ironia delas seja mais interessante que a própria história. Right?

E claro, foi legal conhecer Bruxelas (por favor, sem pedir pra explicar o sistema político belga, eu disse que o tic e o tac batem devagar dentro da caixola) e ver que a zona neutra dentro do Euro afinal funciona para o que foi criada. Mas é uma mistura de água, óleo e areia que eles parecem fazer muito esforço para manter em constante movimento pra ver se os elementos se misturam. Ou às vezes nem isso. Os próprios belgas se atrapalham pra explicar um sistema político que se separa por regiões e línguas (and a LOT of stuff in between). Dá pra se notar a heterogeneidade até/principalmente/muito na arquitetura (pelo menos em Bruxelas): água e areia nuns lugares, óleo e água em outros. No centro, pouca coisa se harmoniza (não que isso seja ruim, just saying): prédios bem modernos no centro dividindo um mesmo quarteirão com, sei lá, art noveau, ou algo bem mais antigo que definitivamente contrasta com o anterior, e ah, um em estilo grego mais à frente. Mas o legal é que os belgas, como bons europeus que são, também mantém marcado no chão o contorno da muralha que protegia a cidade bem antes de ela ser cidade. E ah, tem o Manneken Pis que é uma estatuazinha (“zinha” mesmo, tem uns 60cm) atribuída a um menino bochechudo que, dizem, apagou um incêndio na cidade com um gracioso fio de xixi, salvando-a de uma invasão estrangeira há uns bons muitos anos, lá pelo século XIV (Gracinha, não?). Vi obras de cartunistas em prédios, o TinTin de Hergé entre eles. Vi o Arnold Schwarzenegger (sim, ele mesmo!) comprando tapetes numa loja aleatória. E tomei cerveja (muito boa, diga-se) em um bar onde o menu tem a espessura da última edição da Vogue. E claro, comi waffles e chocolates, cerejas enormes e doces e gastei dotes culinários fazendo arroz e feijão pra minha host. E até que não fiz feio.

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Dublin também foi bem interessante, mais calmo talvez, com direito a voltas pelo centro da cidade num daqueles double-deckers turísticos (contra os quais eu sempre tive um preconceito terrível mas não pude resistir ao convite dessa vez, por pura curiosidade. No regrets) com um primo que mora lá – e, honras da casa à parte, ele tirou um dia inteiro pra me mostrar o lugar. Confesso que me apaixonei por lá. Não tanto por ter uma beleza estonteante (e quem aqui disse que os lugares mais bonitos são os mais interessantes? Acontece frequentemente com gente, também), mas pela alegria da cidade, pelas Guinesses em boa companhia, pela vista do mar a partir de Howth, pelo porto que tem uma paisagem sensacional e leões-marinhos super simpáticos que ficam fazendo gracinha para quem passa ao longo das embarcações atracadas. Pela noite que pede licença pra chegar pelas 22h no verão – e chega de mansinho pra não assustar. Ou pela paixão dos fãs de Bono Vox marcadas na parede do estúdio da banda dele na parte central da cidade (se fosse dublinense talvez não pensasse isso, ah, whatever). Pelo que estava fora da agenda, sempre, embora o que estivesse na agenda tenha sido legal também, em menor proporção. Me apaixonei pelo Brazen Head, o pub mais velho de Dublin, criado em 1198, quando todo o continente americano nem sonhava em nascer. Escutei programas de rádio falando da crise (o tempo quase TODO em que escutava o noticiário de manhã) e de seguridade social, com falas entrecortadas por amenidades. Quando cansava, me sentia um pouco ingrata por colocar um Clash pra tocar. Mas não acho que Wilde se ofenderia com isso.

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Enfim, foi tudo muito bom enquanto durou. A única coisa que não repetiria é a logística – menos pela freqüência famigerada de idas e vindas do que pela escolha do primeiro e do último trecho viajado. E achei que dessa vez ia ficar convencida de que meu lugar não é mesmo aqui, na parte sul do Novo Mundo. Em parte sim (afinal de contas, que noção é essa de “lugar” que a gente tem?), mas em boa parte, não. Pelo contrário: acho que posso ser bem mais útil aqui do que seria lá. Talvez seja mais fácil unir habilidade e paixão num lugar onde ambas possam ser aplicadas e sejam muito necessárias. Ir embora daqui, ao menos muito em breve, seria, ao fim e ao cabo, outro coito interrompido: você acaba de se formar, tem a faca e o queijo na mão pra fazer algo útil mas prefere empregar o que sabe num lugar onde há outras sei lá quantas pessoas por quilômetro quadrado com a mesma formação. Pode ser uma escolha confortável, talvez, mas pode não ser a melhor. A pensar. But first things first.

Quando os dedos coçam (ou: “Sobre Internet, hackeamento da língua e outros blábláblás virtuais”)

Em tempo. Mandar a preguiça passear e dividir um bocado do ouro que ando escavando ultimamente.

Li esse texto do Evgeny Morozov há algumas semanas e ainda não tinha colocado nada no papel sobre ele. Longo (tanto que precisei imprimir para conseguir ler tudo. 27 páginas de ideias inquietantes que me deixaram com mais minhocas na cabeça do que tinha antes de lê-lo. E valeu cada página), instigante, incômodo. Daquelas coisas que você só sente que vai ficar em paz depois de soltar umas ideias sobre. Sentar e escrever.

Então: nesse pequeno calhamaço que consumiu três meses de pesquisa, Morozov fala das manobras de Tim O’Reilly, um dos manda-chuvas do Vale do Silício, para forjar a “realidade 2.0”. E parece que tem sido muito bem-sucedido na empreitada.

(…) Old, trusted words no longer mean what they used to mean; often, they don’t mean anything at all. Our language, much like everything these days, has been hacked.

Essas palavras, como as que vieram após a abertura do texto, caíram como uma bomba. Sim, “our language has been hacked”. E termos como “open” e “2.0” só ajudam a confundir ainda mais a selva de símbolos (e memes) que criamos para passar as ideias pra frente: tomamos o sentido de umas palavras por outras e o significado delas tem se erodido com o tempo (e pode ser que não nos demos conta disso). Num mundo 2.0 a tendência é que se abafemos o debate sobre temas cruciais: direitos humanos, política e liberdades individuais, como lembra Morozov, não estão mais sendo discutidas em seus próprios termos. Estão sendo vistas sob a égide da linguagem da economia, da inovação e da eficiência. E esse vocabulário tem se tornado o repertório está se disseminando para todos os domínios da vida social. Parece um pouco exagerado, mas é alarmante não conseguir se lembrar de algum domínio que não use o raciocínio da “economia, da inovação e da eficiência” para falar de si. E a Internet tem colaborado para que esse léxico se espalhe com mais rapidez e com mais eficácia.

Morozov diz que, no mundo 2.0, a conversa gira em torno da produção de memes. Os debates ficam vazios de significado porque são vistos principalmente sob o prisma do raciocínio econômico. A celebração do self e do empreendedorismo de si chegam a patamares que nem os melhores marketeiros à Mad Men conseguiriam pensar em fazer. O’Reilly conseguiu burlar a ideia de software livre em open source (da liberdade dos usuários de fazer o que quiserem com os códigos que desenvolvem, passa-se à liberdade dos produtores de fazer o que bem entenderem com os programas que fazem. E tudo sob a sombra de um “altruísmo” impossível de ser mais cara-de-pau. O movimento do open software foi marginalizado). E para ajudar, existe algum termo mais “aberto” e mais ambíguo do que “open”? Pode significar o que quiser, dependendo de quem o usa. E aí começa mais uma bela confusão semântica. E (talvez um exagero de Morozov) O’Reilly quer tornar o open source na “mãe” da Internet: a ideia do “open” já estava lá, quando a rede surgiu nos anos 60 e se espalhou pelo mundo nos anos 90 – afinal, ‘a ideia de colaboração em rede é o próprio espírito do open source’. O que as pessoas não sabiam é que tinha esse nome.  Mas,

as O’Reilly himself acknowledged, his “emphasis in talking about open source has never been on the details of licenses, but on open source as a foundation and expression of the Internet”.

E essa liberdade de não se importar com a detenção de licenças seria, em suma, a tal “liberdade da Internet”. Que deveria ser privilegiada em detrimento da liberdade dos usuários da Rede, porque, afinal, sua função é trazer o progresso e conectar pessoas. Claro.

Ao fim e ao cabo, a ideia de 2.0, lembra Morozov, veio depois da crise de mercado no fim dos anos 90 que levou muita gente da web à falência. Os que sobreviveram deveriam pensar em uma outra rede, melhor, mais rápida, mais eficiente – enfim, a fênix renascida deveria ser uma “versão 2.0” de si mesma. A ideia foi tão bem sucedida que, depois dela, tudo o mais quis reclamar para si uma versão 2.0. O problema é ter você 2.0, eu 2.0, política 2.0 e economia 2.0. E por aí vai. Não há como negar que a web tem uma função social importantíssima. Mas daí a fazer com que outros domínios da sociedade tenham uma identidade à sua semelhança é uma manobra meio perigosa que pode não dar certo. Uma política 2.0, por exemplo. Claro que não se pode negar que a Rede tem um papel nela, sim (já virou lugar-comum citar a Primavera Árabe para exemplificar isso e é claro que há outras trocentas implicações no movimento que não dá para entrar agora), mas se pensarmos em um “governo 2.0”, como aponta Morozov, é muito mais interessante que usemos as potencialidades da web para exigir um governo mais transparente, que dá mais voz aos cidadãos e se comunica com eles, que transfere e distribui mais poder entre as pessoas que elegem quem está no andar de cima. Não adianta apenas uma política cosmetizada que se preocupa apenas em ter mais eficiência, menos papeis, e mais inovação. Claro que isso não é ruim (e representa o “governo 2.0” para Morozov). O problema é parar por aí e deixar a transparência, a prestação de contas e o diálogo real com os cidadãos em último plano. O bom é que há iniciativas que pretendem maximizar esse diálogo e usar a web para colocar as cartas na mesa de uma forma mais visível. Mas ainda temos muito o que caminhar. E não é “construindo nossos aplicativos para resolver nossos próprios problemas” que vai tornar a participação política mais ativa ou real. E é claro que não basta só a Internet ou redes sociais para mobilizar as pessoas (e é legal que um cara como Castells diga isso). Claro que não são o suficiente por si mesmas. Mas às vezes acabamos por nos esquecer disso e, então, damos sim, muito poder para as redes e se chega ao cúmulo de dizer, como já escutei, que o Twitter é que ‘causou’ a Primavera Árabe. Oh, wait.

Enfim. Só digo que recomendo (muito) a leitura desse texto, dá muita coisa para matutar. Isto do ponto de vista mais ou menos endógeno da coisa: mudanças e hackings de linguagem alegremente absorvidos pelos habitantes do mundo 2.0. Por outro lado há quem veja o lado negro da força sob um ponto de vista muito mais heterônomo e mais sombrio, até. Julian Assange diz defender um mundo em que as pessoas não sejam vigiadas e monitoradas por um poder central, que pode barrar o uso da Internet, esconder informações importantes de seus cidadãos e restringir a liberdade das pessoas – é como se a Internet tivesse uma potencialidade para ser, também, uma espécie de panóptico contemporâneo. Os termos e as ideias não seriam cooptados pelo neoliberalismo yuppie hiperconectado e descolado, mas teriam seu real potencial de mudança social engolido por governos deliberadamente autoritários, que se recusam a mudar. A saída, ele aponta, seria a encriptação. Quando comecei a ler, lembrei um pouco dos presságios meio apocalípticos que vi nos alguns escritos esparsos que li de Paul Virilio sobre a Internet. A bit scary, so to say.

Assange sabe, sim, do que está falando. Tem razões para isso porque sentiu muita coisa na pele e não é preciso discorrer sobre a caçada pela cabeça dele aqui. Mas toda história tem o outro lado, e sempre existe o outro lado do outro lado também. Em pensar que já conversei com esses caras quando o WikiLeaks nem tinha explodido ainda. Quando ainda precisavam explicar o que é o WikiLeaks. Quem diria, o mundo dá mesmo voltas.

E até entregar a dissertação, vai ter dado muitas outras mais. In this crazy, wild and beautiful world of bites and bits of information. E vamo aí.

Atualizando: putz.