All watched over…

Uma série de documentários para rever de tempos e tempos, “All watched over by machines of loving grace” é uma trilogia produzida por Adam Curtis (que também fez o “The Century of the Self”) para a BBC Documentary Series, em 2011. A ideia principal é a de que o sonho da liberação humana através da cibernética, afinal, não foi tão bem-sucedido assim. O título é empréstimo de um poema homônimo de 1967, escrito por Richard Brautigan:

I like to think (and
the sooner the better!)
of a cybernetic meadow
where mammals and computers
live together in mutually
programming harmony
like pure water
touching clear sky.

I like to think
(right now, please!)
of a cybernetic forest
filled with pines and electronics
where deer stroll peacefully
past computers
as if they were flowers
with spinning blossoms.

I like to think
(it has to be!)
of a cybernetic ecology
where we are free of our labors
and joined back to nature,
returned to our mammal
brothers and sisters,
and all watched over
by machines of loving grace.

“Love and Power” trata da confluência entre a crença no individualismo exacerbado e selvagem (expresso pelo objetivismo de Ayn Rand) e a ideia de que os computadores e a cibernética poderiam ser instrumentos que permitiriam à economia enfim se auto-regular.

O segundo vídeo, “The Use and Abuse of Vegetational Concepts”, fala sobre como a teoria dos sistemas contribuiu para a ideia da natureza como ecossistema – e toda a noção de equilíbrio natural que vem com ela. O desejo da organização social em redes, livres de hierarquias, poderia ser viabilizado pela cibernética.

O último vídeo, “The Monkey in the machine and the machine in the monkey”, mostra como guerras étnicas foram geradas através da ideia de que o homem é um pacote de informações genéticas.

É uma crítica bastante interessante contra o tecno-utopianismo e o determinismo tecnológico que não apenas vê nas máquinas a salvação das mazelas da humanidade, mas, mais que isso, não nos deixa olhar pra dentro de nós mesmos em um espelho que não seja mediado pelas machines of loving grace — tentando mudar o mundo sem lançar mão da política.

Seguramente uma das coisas mais legais que vi no ano passado e que mereceu uma pincelada de marca-texto não só pra ajudar na pesquisa, mas de pensar pra vida. Daquelas coisas que você vê, pára, pensa, volta, vê de novo, anota, respira, chega no fim e só diz, “nú!”. Sem mais.