Vinicius, um “cat” de primeira

Imagem: Companhia das Letras

Sem precisar me rasgar de elogios ao poetinha, mas esse livro, em formato de um EP antigo, é uma delícia, de se ler numa sentada. É uma reunião de textos e poemas que ele escreveu pra revistas como Flan e Sombra enquanto ocupava seu primeiro posto diplomático, em Los Angeles, entre 1946 e 1950. Na escrita, não deixa dúvidas de que era um “cat” (ou fã incondicional de jazz, na gíria dos EUA dos anos 40) que entendia do assunto, contando as coisas daquele jeito gostoso carioca de ser.

O livro é datado, sim, mas leve, também, e irônico, mais ainda. E mostra, principalmente, uma percepção não apenas sobre o jazz, gênero pelo qual Vinicius era aficionado, mas muito sobre a vida dele enquanto vice-cônsul brasileiro na terra de tio Sam, onde andava sempre bem acompanhado. Sua amizade com gente do calibre de Sarah Vaughan e Orson Welles deve ter facilitado bastante a convivência no meio daquela “sensaboria” da vida americana em fins de anos 40 e inicio de 50. A maioria dos jazzmen não fazia parte daquele clube de gente “self-satisfied” com que ele se deparou ao longo da sua estadia: era gente cuja cabeça estava sempre fervendo com novas notas e novas melodias, e, não raro, estavam muito à frente dos preconceitos de uma sociedade segregacionista que respirava o mccartismo. O jazz dava fôlego para nadar até a superfície daquilo tudo, respirar e voltar (imagino o quanto de oxigênio não deu pra absorver numa jam com Louis Armstrong e Benny Goodman no meio!).

Falando em segregacionismo, é particularmente interessante o texto de abertura, que fala sobre a origem do gênero. O negro assume o papel central na mistura e com ele nasce o improviso, fruto da adversidade em que vivia, e infelizmente essa parte da história a gente também conhece bem. “Desde a sua chegada, o negro é o mais ofendido e o mais humilhado dos habitantes da América”, lembra o poeta. De ponta a ponta do continente. Privados do direito de ser, de estar, de conversar entre si.

Proibidos de falar, cantavam. Cantando começaram a se comunicar uns com os outros. Todo um código vocal nasceu dessa limitação da necessidade de falar, hoje perdido, mas cuja história chega até nós. Foi este um dos sinais de revolta que nunca mais abandonaria o povo negro nos Estados Unidos. Quanta conversa de amor, quanta senha de aviso, quanto plano de fuga não deve ter corrido a pauta invisível estendida sobre o algodoal em flor! Que poder de inflexões novas não se devem ter acrescentado à voz crestada de sofrimento e revolta, nos solos, duetos e coros campestres!

E por aí vai a história, que se desenrola começando por uma New Orleans que juntava gente de todo tipo e de todo canto. Deu no que deu. Legal também são alguns paralelos, bem pontuais, que Vinicius traça com o samba daqui debaixo, com a bossa nova. Ou a sua “definição” de jazz ou suas farpas e elogios a jazzmen da época. A ideia não é fazer um tratado sobre o assunto, é juntar paixão em prosa e poesia num livro bonito graficamente, ricamente ilustrado como um álbum de fotos.

E sim, ter o poetinha como guia nessa pequena viagem é uma delícia.

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Sem interromper o coito, por favor

Agora sim, vamos falar de viagem. Há menos de vinte dias, eu voltava de uma. Dessa vez, foram cinco cidades em quinze dias. A matemática básica diz que isso equivale a um vôo a cada três dias. A não repetir.

Não que tenha sido uma viagem ruim: de jeito nenhum, muito longe disso (a não ser por dores de cabeça que a KLM me deu de presente, mas isto merece outro capítulo. E um longo). Tinha compromissos a cumprir, e acho que deu pra dar conta do recado. Revi amigos e conheci lugares, e isso foi a melhor parte. Mas não acho que viajar à japonesa seja meu estilo: afinal, sou devagar pra escrever, devagar pra comer, devagar pra acordar e até pra pensar, às vezes. Não sei de onde vem esse hábito de ruminar sobre as coisas (mineiramente?), mas isso não é lá algo contra o qual se possa lutar e brigar – ao menos não sem provocar um cataclismo existencial. Enfim: o que acontece é que, se a natureza não ajuda, a gente se força pra fazer as coisas depressa. E acaba acreditando nisso  de que dá conta. Mas aí você se depara com uma indigestão e vê que comeu tão rápido que o estômago acabou por não encher direito. Ou que gastou tanto tempo nas preliminares que na hora do vamo-ver a coisa acabou em coito interrompido.

– Que ficou, majoritariamente, por conta do Porto: dois dias e meio, em vésperas da festa de S. João, sem poder participar dela por ter que seguir viagem. Mas rever gente querida foi melhor do que eu podia imaginar. É ótimo ter aquela sensação de que o tempo passou, mas, afinal, não passou tanto assim: vão-se anos, mas parece que foram poucos meses. É como se fosse possível congelar e descongelar conversas e abraços. Deve ser a tal “amizade de baixa manutenção” de que um outro amigo falava dia desses. Poxa, como é bom saber como é isso. Essa (boa) sensação não valeu só pro Porto, mas também pra Madri, Birmingham, Amsterdam e Dublin, cidades que guardam gente bastante querida. A melhor parte disso tudo foi trocar impressões, dividir cervejas, vinhos, almoços, jantares, saídas, risadas e planos. Rever lugares. Conhecer os bebês dos amigos e vê-los sorrindo, felizes à toa (“springtime in Europe!”). Viajar à japonesa sem dúvida já teria valido a pena se parasse por aí.

Mas também tinha compromissos pra cumprir na agenda, e como disse, a impressão é a de que dei conta da coisa. Não extraordinariamente (poderia ter feito uma pesquisa e uma apresentação bem mais interessantes, mas vamo aí), mas foi. E foi. Uma semana em Dublin se resumiu a quase uma semana na DCU, trocando ideias, ouvindo, falando. Mas senti que foi um pouco difícil alcançar as pessoas. Os colegas engravatados da Communication Research me fizeram lembrar e (cara, que estranho) sentir  um  pouco de saudade da Assembleia Geral da IAU no Rio, em 2009, exatamente por serem (pra  usar um termo bonitinho) antípodas: quase todo mundo de camisa pólo, shorts e meias acima das canelas, bem mais abertos a trocar um ou dois dedos de prosa. Com gente tão simples quanto os caras que votaram para tirar Plutão do Sistema Solar (despojamento, sabe?). É claro que não ter um paper pra apresentar ajuda a aliviar a pressão e te faz sentir bem mais à vontade – e ser diferente, ou no caso, não-cientista fodão, também ajuda bastante. Mas não é o primeiro congresso de que participo na minha área e é aquela mesma impressão: as pessoas poderiam ser um pouco mais comunicativas (que paradoxo), não no sentido literal da coisa, mas, sei lá, fazer-se mais “aproximáveis”. We’re all on the same boat, n’est ce pas? Sei lá, talvez eu também estivesse um pouco arisca. Mas enfim. Sem paradoxos a vida não seria um negócio tão interessante.

Por falar em paradoxos, percebi que, em muitos lugares por onde passei no Velho Continente, a crise tá feia. Aliás, continua feia e mostrando os dentes. No P e S dos PIGS, o desemprego não mostra sinais de baixar (a quase 20% em Portugal e mais de 25% na Espanha – e a impressionantes 43% para pessoas com menos de 25 anos só em Portugal) e na Irlanda a coisa parece ser mais branda, a cerca de 14%. Não que seja pouca coisa, é só menos pior (pra se ter uma noção, o Brasil, há bem pouco tempo, tinha menos de 6% de desemprego, com “pleno emprego” em algumas partes do país – Minas entre elas). Enfim. O paradoxo é que a qualidade de vida continua boa. Com um pouco mais de medo e desconfiança, é verdade, mas boa (não, e não vou comparar com o Brasil porque essas coisas não têm sentido. Não tá tão ruim assim e pronto). Pra quem tem emprego, nem que esteja por um fio, claro. Outro paradoxo é que, enquanto rolavam manifestações contra a austeridade pipocando pelo Velho Mundo e inundando a rua Augusta, em Lisboa, e a Av. dos Aliados, no Porto, por exemplo, eu estava acompanhando a coisa, de longe, no meu desassossego paulista, torcendo pelos de lá. E quando começaram as manifestações do lado de cá (destino, seu fanfarrão!), eu estava do lado de lá torcendo pelos amigos que cá estavam na rua. Pelo menos antes de a coisa degringolar e descambar para a zoação. Em tempo real via wi-fi. Enfim. Mas é bom ter essas histórias pra contar, nem que a ironia delas seja mais interessante que a própria história. Right?

E claro, foi legal conhecer Bruxelas (por favor, sem pedir pra explicar o sistema político belga, eu disse que o tic e o tac batem devagar dentro da caixola) e ver que a zona neutra dentro do Euro afinal funciona para o que foi criada. Mas é uma mistura de água, óleo e areia que eles parecem fazer muito esforço para manter em constante movimento pra ver se os elementos se misturam. Ou às vezes nem isso. Os próprios belgas se atrapalham pra explicar um sistema político que se separa por regiões e línguas (and a LOT of stuff in between). Dá pra se notar a heterogeneidade até/principalmente/muito na arquitetura (pelo menos em Bruxelas): água e areia nuns lugares, óleo e água em outros. No centro, pouca coisa se harmoniza (não que isso seja ruim, just saying): prédios bem modernos no centro dividindo um mesmo quarteirão com, sei lá, art noveau, ou algo bem mais antigo que definitivamente contrasta com o anterior, e ah, um em estilo grego mais à frente. Mas o legal é que os belgas, como bons europeus que são, também mantém marcado no chão o contorno da muralha que protegia a cidade bem antes de ela ser cidade. E ah, tem o Manneken Pis que é uma estatuazinha (“zinha” mesmo, tem uns 60cm) atribuída a um menino bochechudo que, dizem, apagou um incêndio na cidade com um gracioso fio de xixi, salvando-a de uma invasão estrangeira há uns bons muitos anos, lá pelo século XIV (Gracinha, não?). Vi obras de cartunistas em prédios, o TinTin de Hergé entre eles. Vi o Arnold Schwarzenegger (sim, ele mesmo!) comprando tapetes numa loja aleatória. E tomei cerveja (muito boa, diga-se) em um bar onde o menu tem a espessura da última edição da Vogue. E claro, comi waffles e chocolates, cerejas enormes e doces e gastei dotes culinários fazendo arroz e feijão pra minha host. E até que não fiz feio.

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Dublin também foi bem interessante, mais calmo talvez, com direito a voltas pelo centro da cidade num daqueles double-deckers turísticos (contra os quais eu sempre tive um preconceito terrível mas não pude resistir ao convite dessa vez, por pura curiosidade. No regrets) com um primo que mora lá – e, honras da casa à parte, ele tirou um dia inteiro pra me mostrar o lugar. Confesso que me apaixonei por lá. Não tanto por ter uma beleza estonteante (e quem aqui disse que os lugares mais bonitos são os mais interessantes? Acontece frequentemente com gente, também), mas pela alegria da cidade, pelas Guinesses em boa companhia, pela vista do mar a partir de Howth, pelo porto que tem uma paisagem sensacional e leões-marinhos super simpáticos que ficam fazendo gracinha para quem passa ao longo das embarcações atracadas. Pela noite que pede licença pra chegar pelas 22h no verão – e chega de mansinho pra não assustar. Ou pela paixão dos fãs de Bono Vox marcadas na parede do estúdio da banda dele na parte central da cidade (se fosse dublinense talvez não pensasse isso, ah, whatever). Pelo que estava fora da agenda, sempre, embora o que estivesse na agenda tenha sido legal também, em menor proporção. Me apaixonei pelo Brazen Head, o pub mais velho de Dublin, criado em 1198, quando todo o continente americano nem sonhava em nascer. Escutei programas de rádio falando da crise (o tempo quase TODO em que escutava o noticiário de manhã) e de seguridade social, com falas entrecortadas por amenidades. Quando cansava, me sentia um pouco ingrata por colocar um Clash pra tocar. Mas não acho que Wilde se ofenderia com isso.

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Enfim, foi tudo muito bom enquanto durou. A única coisa que não repetiria é a logística – menos pela freqüência famigerada de idas e vindas do que pela escolha do primeiro e do último trecho viajado. E achei que dessa vez ia ficar convencida de que meu lugar não é mesmo aqui, na parte sul do Novo Mundo. Em parte sim (afinal de contas, que noção é essa de “lugar” que a gente tem?), mas em boa parte, não. Pelo contrário: acho que posso ser bem mais útil aqui do que seria lá. Talvez seja mais fácil unir habilidade e paixão num lugar onde ambas possam ser aplicadas e sejam muito necessárias. Ir embora daqui, ao menos muito em breve, seria, ao fim e ao cabo, outro coito interrompido: você acaba de se formar, tem a faca e o queijo na mão pra fazer algo útil mas prefere empregar o que sabe num lugar onde há outras sei lá quantas pessoas por quilômetro quadrado com a mesma formação. Pode ser uma escolha confortável, talvez, mas pode não ser a melhor. A pensar. But first things first.

Through a glass, darkly

À partida, queria falar de outra coisa, colocar pra fora algumas impressões de viagem, falar do que vi e revi, do que conheci.

Mas me deparei com um Álvaro de Campos que há muito não visitava. Perdi as palavras. Perdi o fôlego. Apenas consegui calar-me, em reverência. E só.

(…)

O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(…)