A arte contando história

Fim de semana em São Paulo. Bom resolver questões práticas, rever gente, tomar um café em boa companhia e ser surpreendida – por algo, que, na verdade, nem deveria ser surpresa. Na mesinha de canto da sala, um box de um documentário excelente que conta a história de um dos meus estilos favoritos e usa a arte como pano de fundo pra falar da sociedade em que nasceu. Não devia ser surpresa ver “Jazz”, documentário dirigido por Ken Burns, na casa de amiguinhos músicos. Mas foi.  Estavam lá os DVDs 7 e 8, dos anos da guerra. Confesso que o volume 8 teve sessão dupla. Que delícia. É muito mais legal olhar para trás quando o fio condutor são notas de baixo, bateria, sax e trompete  – e não apenas monólogos recheados de datas e monotonia. Mordi a isca e preciso ver o resto, começar do início e terminar no final. Coisa rara pra mim esses dias.

O que mais me chamou a atenção nisso tudo foram algumas letras que ficaram agarradas aos ouvidos, que nem era o jazz de Duke Ellington, Charlie Parker ou Dizzy Gillespie: “Uncle Sam Says”, blues de Josh White, gravado em 1941, no olho do furacão da II Guerra Mundial. Interessante pensar que, enquanto Tio Sam ia para as linhas de combate na Alemanha lutar por democracia (e igualdade), muita gente amargava back home por causa das “leis de Jim Crow“, que só foram revogadas no papel muito tempo depois, lá pelos anos 60. Ainda pensando nessas coisas, eis que me deparo com esse post que saiu na The Economist no fim de semana, falando de políticas raciais de cotas do lado de cá. Aparentemente defendendo a ação afirmativa, mas atestando o óbvio ululante: ainda não sabemos qual o real impacto dessa “política de reparação” daqui a alguns anos, se as relações interraciais (detesto esse termo) vão melhorar ou piorar. Mais ainda porque o cenário por aqui é muito mais complexo do que parece à primeira vista (“Fulano é pobre porque é negro ou é negro porque é pobre?”) e é difícil restringir problemas de causas sociais a causas raciais – ainda que se cruzem em muitos momentos. Muito já foi debatido sobre o assunto e ainda há muito mais pra se debater.

Bom, enquanto não temos respostas, temos a arte pra ajudar a contar a história. E provavelmente vão surgir muitas letras sobre as cotas quando a coisa tiver realmente tomado forma. Vai saber, né?

 

P.S.: e a felicidade de poder comemorar hoje o Dia Internacional do Jazz, hein? :-)

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Sim, os Tsarnaevs são brancos

Muito, muito boa essa análise que saiu ontem no Daily Beast sobre os suspeitos do atentado da maratona de Boston, há pouco mais de uma semana. Pelo que parece, Tio Sam respirou com alívio quando soube que os (outra vez e é legal frisar) suspeitos Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev “não são brancos americanos”: não tanto pelo fato de serem chechenos quanto por serem muçulmanos, é claro. Desde o 11 de setembro um sujeito não pode ser branco e muçulmano ao mesmo tempo. A componente religiosa na vida de alguém se tornou, surpreendentemente (ou nem tanto) étnica. 8 ou 80, preto no branco – ou melhor, longe do branco: ser muçulmano implica em ser não branco, não cristão, não ocidental, não civilizado, e, por consequência, terrorista. Dá medo só de pensar em pra onde a coisa caminha (Mas, como todo mundo sabe, ainda bem que no Brasil a gente não tem preconceito. Né?).

But the bombers were white Americans. The Tsarnaev brothers had lived in the United States for more than a decade. Dzhokhar was a U.S. citizen. Tamerlan was a legal permanent resident in the process of applying for citizenship. And as countless commentators have noted, the Tsarnaevs hail from the Caucasus, and are therefore, literally, “Caucasian.” You can’t get whiter than that.

So why did conservatives mock Sirota for being wrong? Because in public conversation in America today, “Islam” is a racial term. Being Muslim doesn’t just mean not being Christian or Jewish. It means not being white.

Textando

Acho que a primeira vez que li a palavra “etimologia” em algum lugar que fez sentido pra mim foi me divertindo com Monteiro Lobato, em Emília no País da Gramática, há uns bons anos por aí. Estes dias estava me lembrando disso com um pequeno exercício que me caiu no colo por conta de uma apresentação – de um texto – que tinha que fazer. Completamente aleatório, mas daquelas coisas que você sente que precisa colocar num papel pra se sentir em paz.

Texto, tecido, textura, tessitura, têxtil, tecer.

Mesmo radical latino – textus – mesma ideia de fios entrelaçados fazendo uma única fábrica (fabricação, fabrica, faber… dá pra viajar nesse também), “texto”, particípio de texo, texere. Coisa feita, já entrelaçada.

Pensar num texto como um entremeado de sentidos não necessariamente corresponde a pensá-lo como um entretecido de palavras – e agora preciso agradecer a Eni Orlandi, que me mostrou que mais do que o que se fala, o que não se diz é o mais importante de um tecido. O silêncio, lembra ela, é a instância fundadora de um discurso, de um texto. A base que subjaz tudo o que compõe a significação.

Interessante, isso. Interessante também é pensar no tipo de fios que a gente usa para compor essa textura, em como isso é feito. O que diferencia um retalho de seda marroquina de um de algodão cru ou sisal pode quiçá se parecer com o que distingue um pensamento refinado de uma construção mental embrutecida, guardadas as proporções, é claro. E não é uma questão apenas de justaposição de palavras. Fazer seda marroquina ou chinesa com palavras pode ser tão ou mais difícil que acompanhar todo o processo desde o início, quando se tira a matéria-prima do casulo. Conversar com o editor sobre a angulação, ter tempo de pesquisar, ler, pensar sobre o assunto, enfim. Isso distingue muito uma peça de organza de seda de uma de jeans. E esta semana, em um evento que tive o privilégio de poder co-organizar, tive a satisfação de ver Bernardo Esteves (colega cujo trabalho admiro e acompanho há algum tempo) dar uma deixa sobre como entretecer fios de cashimir: “se quiser contar a história dos correios, conte a história de uma carta”, ele disse. Para isso, é preciso seguir um processo e contar como ele se desenrola desde o início – indo do mais específico para o mais geral. É isso que faz com que um texto de uma New Yorker seja o texto de uma New Yorker. E pra fazer um bom entremeio não precisa se estar tão longe do arroz-com-feijão: na correria diária também há espaço para peças de chiffon de seda.

E foi o que o Ray Bradbury, artesão bastante experimentado no ofício de tecer metáforas, me lembrou com esse (delicioso) vídeo. Além de tempo, é preciso sentimento para fazer bons entremeios e escolher bem os fios que se vai usar:

Uma melodia

Sabe, gente.
É tanta coisa pra gente saber.
O que cantar, como andar, onde ir.
O que dizer, o que calar, a quem querer.

Sabe, gente.
É tanta coisa que eu fico sem jeito.
Sou eu sozinho e esse nó no peito.
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder.

Sabe, gente.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer.

E quando escutar um samba-canção
Assim como: “Eu preciso aprender a ser só”,
Reagir e ouvir o coração responder:
“Eu preciso aprender a só ser.”

(É, Gil. Hoje você me pegou de jeito, mesmo, hein?)

Um post-it em neon

Que a deficiência na qualidade do aprendizado de Matemática em idade escolar no Brasil só aumenta ninguém duvida. E nem tem como: o incrível é ter números que ainda nos assustem (ou, na melhor das hipóteses, nos surpreendam negativamente). “E tende a piorar” é o que se ouve desde quando eu ocupava os bancos de escolas públicas espalhadas por BH. Talvez realmente tenhamos que parar um pouco e quebrar a cabeça para pensar em formas alternativas de mudar isso – ou fazer um pacto pelo ensino da Matemática, o que não seria nada mau.

Já que a maioria das minhas habilidades matemáticas ficaram guardadas em anotações de Ensino Médio, dá pra colocar um post-it fluorescente na agenda e pensar em como resolver parte do problema, ainda que pequena, em outra frente: as habilidades de Inglês por aqui também são de dar vergonha. E a observação nem é em defesa de nenhum tipo de dominação cultural – é um cálculo racional de necessidade de competitividade de mercado, inclusão e ascensão social. Mas num país onde o analfabetismo funcional ainda é um problema (bem como o preparo e a remuneração de boa parte do corpo docente do ensino público), esse é um desafio ainda maior e talvez mais interessante.

O que dá mais uma oportunidade para colocar a cuca para funcionar – e talvez em tempo de não deixar a ideia virar peça de museu. Who knows?