Perguntas, perguntas

Ordenar o passo-a-passo para fazer sentido – e não deixar passar batido. Interessante quando o trabalho da gente é tentar responder perguntas (ou ao menos achar pistas para pensá-las de forma melhor) e elas não param de pulular, vindas de todos os lados. Quanto mais interessantes, mais bem-vindas. Afinal de contas, boas perguntas estão quase sempre grávidas de bons textos, artigos e boas pesquisas. A fagulha que desencadeia o método científico é, portanto, de natureza bem mais poética do que se pode imaginar. Basta imaginar uma pequena pergunta grávida. Não é lindo?

Uma dessas perguntas é recortar e localizar a discussão da cobertura que foi feita sobre o furacão Sandy, que varreu boa parte da costa Leste dos nossos vizinhos norte-americanos e também não foi nada legal com o lado caribenho e centro-americano da vizinhança. Bom. Há conversas que considerem que a cobertura – do ponto de vista científico, pelo menos – foi bastante equilibrada nos EUA: não jogaram toda a culpa do Sandy nas costas do aquecimento global (e assim, fechar o diálogo de uma forma simplista) e nem negaram o fato de que o fenômeno tem, sim, a ver com as temperaturas que só aumentam. Bom pra eles.

No entanto, a sensação que se tem é de que Sandy fez muito mais estrago em NY do que nos lugares por onde passou antes. E do lado de cá, como nós, brazucas, e nossos hermanos mexicanos vimos o ocorrido (do ponto de vista da ecologia social)? Bom, há algumas dicas (é bom ir lá e ver o negócio, tomar a coisa por garantido não é um bom caminho) mas essa é uma pergunta que ainda não pariu resultados. Mas o parto está marcado para maio.

Outra pergunta prestes a dar a luz vem do desenvolvimento do próprio método científico e de como está sujeito a erros (e fraudes, e plágios…) – o método e os habitantes da Torre de Marfim, feitos de carne e ossos (muitos deles descansando bem pouco). Como é que a academia lida com os erros na produção científica? Que tipo de métodos de verificação usa para evitá-los? Certeza que nem toda falha ou fraude seja resultado da política do “publish or perish”. Claro que existe picaretagem declarada no meio. Mas quão eficiente a academia tem sido para que esse tipo de prática diminua? Bom, cenas dos próximos capítulos, very soon to come.

E ainda outra pergunta, que na verdade é uma não-pergunta (precisa virar um grande ponto de exclamação daqui a menos de um mês): descobrir formas interessantes de se pensar/juntar ciência e cultura em seus limites e deslocamentos, divergências e confluências. Pensar no formato da coisa está sendo bem interessante. Mas o que dá vontade mesmo é ver o conversê se desenrolando enquanto pontos de interrogação ficam grávidos e alguns parem pequenas reticências, vírgulas, travessões, dois pontos e muitos espaços no auditório.

Sim, é muito bom trabalhar com perguntas. :)

E agora, José?

É uma boa pergunta sobre um assunto que não poderia deixar de comentar: de acordo com a consulta pública feita na Unicamp essa semana, José Tadeu Jorge deveria ser escolhido como o novo reitor pelo governador Geraldo Alckimin. Fiquei pensando se teria legitimidade real se for escolhido efetivamente, já que, em termos práticos, a escolha foi heterogênea – definida pela parcela que mais se organizou na comunidade acadêmica, os servidores (dos quais 84% compareceram à votação). A diferença entre Tadeu e Saad entre os professores e alunos foi bem menor (os professores preferindo o segundo e os alunos, o primeiro, por uma diferença de apertados 75 votos). Mas o que me espantou foi que os estudantes ou resolveram se calar ou mostraram que realmente não se importam com o resultado, seja ele qual for: foram quase 84% de abstenções. E acho que isso é um sintoma: se acontece numa universidade de elite no Brasil, num referendo sobre algo que vai ter impacto direto sobre a vida de todos que frequentam a Unicamp, fica difícil pensar no que dizer sobre o restante do país em situação mais ou menos parecida (em pensar que a campanha pra muita gente já começou e 2014 ainda nem chegou e já existe pesquisa de intenção de voto – com a Dilma na frente, por enquanto). Talvez as eleições não devessem ser vistas como um dever, obrigatórias, mas sim como um direito, opcionais. Mas também é difícil pensar na governabilidade de uma decisão dessas por aqui. Pode ser que muita gente deixe de votar também – o que certamente faria com que os candidatos suassem a camisa um pouco mais na conquista pelos votos. Será que isso melhoraria a qualidade do processo democrático no Brasil? Não sei. Mas dá curiosidade.

Enfim, voltando ao referendo: resta agora esperar a decisão do governador, e, seja ela qual for (o que também vai dizer muita coisa sobre “quem manda nessa bodega sou eu”), cobrar ações e o sem-fim de promessas que foram feitas aos quatro ventos, por ambos os lados. É bom ficar de olho.

E, como não podia deixar de ser, tomara que a próxima administração também tenha os olhos abertos para práticas de desrespeito e racismo como o que se viu na UFMG esta semana. Shame, shame, shame.

Caught by surprise

Feels like running into a gem you’ve already passed by once – but reckless and unattentively – and only the silence and rest of a quiet night, brought by a cool-blowing wind, could show the vividness of the color within these notes. Stuck in my ears, soaring in the very breeze that brought them on, as if they’d been woven in the thin air threads that come from my open door. It’s certainly useless to think of the multitude of undiscovered firsts life is still able to bring about. But how many of them will we be effectively able to see, grasp or perceive? Maybe that’s not the question either. Neither it is trying to think of how long we’ll live to see them – or either whether we’ll live enough to see them. Maybe the question has more to do with whether we’re going to climb the mountain and face the danger of not getting to its top – or maybe choosing which mountains to climb. Or whether we should put this noun into plural or not.

Is this the right mountain…

…for us to climb?

Mountains. Undoubtedly a fascinating metaphor. Don’t know what’s in them that makes them so hard to overlook, even when they’re not being devoured through the open window of a travelling car – and it’s not just for their size for sure. I’ve always loved them – not having been raised on a coastal city also has its advantages (and sure they outnumber the disadvantages) – and in more recent years I had one more figure to paste to this “bricolage”: Nietzsche. Not for Zaratustra, but for Nietzsche himself. And the question which answer must have been one of the most deceptive episodes in his whole insane life: an invitation to “climb the mountain” to the “wrong” person. He was certainly delusional by then and had probably spent his whole neuronal capacity with idea outlining and lacked common sense to outline his love life (though it’s quite hard to imagine a woman who’d fall in love with that sexist moustache). But the question was interesting: he didn’t ask his Lolita to love him forever or blablabla. He asked her if she wanted to climb the mountain with him. An ingenious move for certain. And surely one of the most instigating and caring and [whatever adjective for “awesome” you want to paste here] question a person could make to another. In any sense or quality/type of relationship. I think that’s the apex of closeness a human being can have towards another – and the zenith of openness to the different, on the other hand. An astonishing  ambivalence and possibly a mind-blowing experience.

But maybe that’s another question, too. (By the way: thank you, Feist.)

Shadows of the mountain,
don’t tell them what’s under.
The breadth and the height
of an undiscovered first.

Shadows of the mountain,
don’t tell them what’s in store.
The height and the breadth,
is it wrong to want more?

A neon marker for this

I’ll surely want to remember these considerations from time to time. One can’t bend too much towards a side on which despair and distress are constant companies because of the unavoidability of half-knowledge. Really glad and an achievement if you know half of something. That’s a lot. If you can quantify it. On the other hand, though, being cynical about this inexorability and just resting, sleeping over and missing the train completely won’t help either. That’s not even mediocrity (maybe calling it abjection would be way too much). But a well-balanced observant negative capability. Hm. Sounds good, really. Surely a good way to avoid crossing the thin subtle line there is between sanity and the lack of it.