Um agudo diferente

Semana passada me caiu uma ficha que fez um barulho diferente. Não que fosse algo que nunca tivesse ouvido, mas foi, sim, algo que talvez tenha me passado ao largo por muito tempo e nunca parei realmente pra prestar atenção o suficiente ao agudo dessa ficha. Bem, semana passada parei e escutei.

Mesmo em meio à agitação louca de um desses eventos acadêmicos enormes com milhares de pessoas – estive na Anpocs e sim, foi super interessante e cansativo na mesma proporção – a ficha dos “direitos humanos” caiu de um jeito que não tinha escutado ainda. Pensar a questão indígena como algo palpável – e que a atrocidade contra eles está sim, acontecendo, e agora – e pensar no quanto a gente torce para que a Comissão da Verdade dê certo de fato e limpe alguns pratos da nossa cozinha, bem, acho que isso demorou a acontecer. Não estou falando de militância no sentido estrito da palavra, seja de sofá, pelo Facebook, seja na rua, empunhando bandeiras (se bem que uma e outra tenham seus pontos positivos e outros, nem tanto) – nem de extremismos de esquerda. Isso não implica em me tornar socialista de mesa de bar, ovolactovegetariana ou candidata a bicho do mato. Nada contra, mas não há muito o que fazer quando a gente não é muito afeito a extremos. Aliás, acho que extremos são desnecessários, fontes de conflitos desnecessários, um bocado burros por serem ideias tiradas do forno às pressas como um bolo cru – e são tão chatos quanto quem os carrega. Mas ainda assim a gente se assusta – e muito – quando extremos acontecem. E debaixo dos nossos olhos e narizes.

E então a gente percebe que precisa pensar em alguma coisa – e mais que isso – fazer alguma coisa.

E aí a gente entende um pouco os amigos ovolactovegetarianos, os socialistas de mesa de bar e os ativistas – de rua, mais do que os de Facebook.

O que se pode fazer, então? Sempre fui partidária do efeito das micropolíticas, sempre achei que ações pequenas e mudanças de atitude a longo prazo têm seu lugar e fazem um tipo de mudança estrutural na cultura. E é de mudanças estruturais que a gente precisa, é com ideias novas e respeito à humanidade de cada um que se pode evitar que as sociedades entrem em colapso. E em extremos. Mas o que fazer dessa atitude praticamente zen-budista quando existem urgências à moda ocidental a ser resolvidas e não podem esperar?

Essa ficha não caiu ainda, mas espero que caia. E logo.

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