Notas em neon (II)

Não reconhecemos o outro no outro. O outro é sempre um reflexo imperfeito de nós mesmos.

No entanto, quanto mais perfeito e menos embaçado for o reflexo, mais vamos reconhecer o outro nesse outro. 
E no fundo, sabemos que esse outro não existe, porque ele é uma construção à nossa imagem e semelhança. Não deixamos que ele seja, simplesmente. Só pode ser o que queremos e deixamos que ele seja. 
Não é estranha essa ideia de alteridade que a gente tem?
Numa noite qualquer, o vento soprava gelado e a lua cintilava em sua plenitude, deixando bem visíveis os 360° de sua circunferência contrastando com aquele céu escuro, cravejado de estrelas. 
[“Que lindo”, pensei.]
Me invadiu então uma sensação estranha, uma pergunta. 
– Será que precisamos compreender algo para poder apreciá-lo (em sua plenitude)? 
Possivelmente, a compreensão desse algo que vemos torna-o mais belo aos nossos olhos. Mas será que compreender é condição para se apreciar?
Pessoas, lugares, filosofias, crenças, a arte, a natureza, enfim, esse outro. Será possível apreciar algo sem que passe pelo crivo da razão e vá direto ao sentimento, às entranhas, ou, como disse Adélia Prado uma vez, “ao estômago”? 
Seria isso aquele “voltar ao estado natural”, àquela curiosidade infantil em que se vê tudo pela primeira vez e nada parece óbvio? Aquela capacidade de se envolver com tudo à nossa volta fazendo o uso de todos os sentidos? Será que existe uma forma de desembotá-los do apego à razão a que tanto nos habituamos a pensar que usamos?