Mais textos, mais palavras

Naquele exercício de juntar e guardar mais textos que a gente escreve (e às vezes se esquece de que escreveu), aqui vão três para constar: uma crítica do lindo Casa de Areia, de Andrucha Waddington – tempos depois do meu tempo de Jornalismo Online no UNI-BH – e, na mesma vibe, algumas notas sobre a vida do nada menos que genial Ingmar Bergman. E adjetivos estão na moda, note-se bem. Economizá-los quando se fala de filmes como Morangos Silvestres e Através de um Espelho pode ser sinal de miopia estética (ou não. Afinal de contas, isso não é uma questão de optometria artística, e ainda bem).

Bom, e o outro texto, o terceiro, é uma contribuição dada à versão digital do Jornal Universitário do Porto. E isso já vai algum tempo, como era de se notar. É a versão original da entrevista que fiz com o jornalista Ricardo Pereira durante os dias quentes e agitados do Festival Internacional de Jornalismo em Perugia, na Itália. Uma experiência que ainda espero repetir.

Under the spotlight and through the wind

Porque hoje estava me lembrando de um dos textos que mais gostei de ter escrito. E tenho orgulho de que seja assim, tão bonitinho. Não é lá tão comum que ache os meus textos tão fofinhos, e não sou muito adepta do uso da modéstia em exagero. Mas desse eu realmente gosto muito… e gosto ainda mais de lembrar da ocasião em que foi escrito, enquanto sentia o frio portuense nos ossos e olhava o vento soprando pela janela do quarto. Ai, saudade. :-)

Notas em neon

Se desapaixonar é fácil: basta inventar os argumentos necessários para isso e borrar o objeto da sua paixão em tons cinzas, marrons e negros. Parece auto-engano, mas é uma forma fácil e leve (mediocremente leve) de resignação. Uma forma simples de adormecer os sentidos já que o resignar-se implica em não-conflito. Fácil, não? Quase tão fácil quanto se curar de uma febre auto-infligida pelo simples abrir dos olhos.
Preciso pensar sobre o que significa um estado de bem-estar social que funcione, colocar Gramsci e Hayek numa mesa-redonda. Preciso pensar na minha orientação política mais solidamente e saber o que acredito e porquê acredito nisso. Ficar em cima do muro é sempre mais confortável, você escuta e finge que entende tudo e não assume nenhuma opinião para não se comprometer. Que farsa. Criticar o liberalismo ou seus antípodas sem saber o que nem um nem outros significam a fundo, isso sim é uma forma medíocre de auto-engano. Uma saída preguiçosa, no mínimo. E, mesmo que seja um auto-engano consciente, não deixa de ser desprezivelmente medíocre.
(É a mesma coisa com a religião, espiritualidade e afins. Mas sobre isso ainda tem que se pensar um pouco mais para escrever, embora isso sim, dê um bocado de preguiça. A outra opção é ler Nietzsche compulsivamente. Que pobreza não se dar ao luxo de pensar em mais opções.)
Einmal ist keinmal. Velleicht? Ler Milan Kundera me trouxe de novo a inquietação sobre a impossibilidade de se ensaiar a vida, de “viver um esboço de um quadro vazio”, como ele mesmo diz. A vida já nos joga, sem preparo algum, face a situações com que precisamos lidar, mas que definitivamente não sabemos (e nem podemos saber) se agimos bem ou mal na maioria delas* porque não existe nenhuma base anterior de comparação. Pelo menos não uma base tangível e lógica. Não é desesperador pensar que só se vive uma vez? Apenas uma vez em que se possa fazer uso da liberdade de escolha (ou do que consideramos que ela seja), de errar e de acertar, de deliberar entre dizer e deixar de dizer as coisas.
– Mas será que uma vez é realmente vez nenhuma?
(*Na maioria delas: de novo, totalizar é reduzir e generalizar se torna cada vez menos meu forte. Mas acho que algumas bases de comparação, mesmo que de ordem moral, ética, filosófica, espiritual etc, enfim, cada base dessas tem a sua lógica e ajudam nas decisões, sim. Mas a que ajudaria mais, a consecutiva, aquela de causa e efeito, linear como um filme desenrolado, infelizmente não está disponível nem ao nosso alcance. Too bad for us.)
E já que a vida não tem rascunho nem ensaio, talvez seja importante ir devagar com o andor, não por ser o santo feito de barro, mas porque o etéreo, quando condensado, é fugaz e quebradiço tal como uma taça de cristal fino que pode se estilhaçar a qualquer passo em falso. E acho que isso ainda é um apêndice do que aprendi (ou faço algum esforço para enxergar) no último ano, de uns tempos para cá. É preciso observar com calma, absorver (e sorver) devagar cada gota da vida, dos acontecimentos, enfim, despertar e afinar os sentidos. É preciso usá-los na proporção correspondente: apenas uma boca enquanto temos dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, duas mãos – com nada menos que cinco dedos cada. É o tão difícil equilíbrio do se falar menos, escutar e olhar mais, cheirar o que está no meio do caminho e escrever. Bastante. Afinal, são dez dedos o que cada pessoa tem nas mãos. Fazer uso deles para conciliar os demais sentidos é, antes de mais nada, extremamente nobre. O homo scriptor é a coroa da evolução.
Será que um dia a gente aprende de verdade as coisas que diz assim, com tanta facilidade?
Preenchendo o ar enquanto as letras saem, algumas notas coloridas pela nostalgia vinda direto dos anos 90.

The times, they are a-changing…

“Família, família. Papai, mamãe e titia”… 

Mais de um mês depois dos últimos rabiscos, uma ótima sensação ainda se sente pelo ar, e é resultado de 20 dias de férias – que tardaram, mas enfim vieram – em que pude me encontrar com a minha pequena-grande irmã, que admiro cada vez mais à medida que o tempo passa, colocar alguns quilos felizes a mais (não, mas não tive a coragem de subir numa balança e constatar se eles estão lá ou não, e prefiro não saber quantos são!), o intestino ainda processando o churrasco consumido – em quantidade suficiente para pelo menos uns seis meses a frente – memórias de muita gente boa que tive o prazer de conhecer e papear, lembranças de dias de muito calor, chimarrão, piscina, caminhadas e cervejas pela praia… e muitas outras memórias boas para guardar com carinho, ainda tenho nas orelhas algumas notas de Lamartine Babo, Carmem Miranda, Sonny Boy Williamson e claro, Bob Dylan. E essa foto aí de cima. Ah, que delícia. :-)

(falou e disse, Sonny Boy. Sábias palavras!)

Bom, depois disso tudo, para fazer jus ao título do post, acho válido ainda trazer à baila algumas ideias que começaram a ser esboçadas enquanto eu estava literalmente viajando, literalmente no ar: entre BH e POA, mais uma vez, e outra vez, com um outro destino que não a capital gaúcha. E a expectativa é que daqui a menos de 365 dias o tom mude e as palavras sejam diferentes. Mas vamos a elas, as tão necessárias “lições que aprendi em 2010”, quase beirando o clichê com seus ares de manual de auto-ajuda:

*Lição #1: a única pessoa que pode se colocar entre você e seu sucesso é você mesmo.
(Oh, man. Sem comentários, só isso.)
*Lição #2: seu tempo, seus recursos e suas emoções são escassos, portanto, precisam ser bem usados e bem aproveitados. NÃO SE DESPERDICE.
(Porque ter potencial não é, de forma nenhuma, garantia de sucesso. Aliás, muito pouca coisa na vida é garantida. É como naquela velha lição de física básica que a gente aprende na escola: a energia cinética só aparece quando deixa de ser potencial. Enquanto a água está parada, é apenas água inerte, nada mais. É estranho e meio amargo o gosto do desperdício, a sensação de que, de tanto armazenar a energia, faz-se com que ela se perca no espaço ao longo do tempo. Acho que faz sentido, sim!)
*Lição #3: FOCO. Porque restringir o campo de opções sempre facilita as coisas na hora da escolha. Sem a menor dúvida.
(Essas coisas óbvias que a gente sabe, mas de tanto saber, se esquece delas. Bem disse o Alain de Botton uma vez que “a arte de viver tem a ver com manter em mente o que sabemos na teoria mas nos esquecemos na prática”. Vai, nem sempre auto-ajuda (ou talvez filosofia clínica?!) é clichê. E confesso: eu gosto, sim, do Alain de Botton). :-P
*Lição #4: a vida da gente é a gente quem faz, é a gente que precisa decidir como ela vai ser, e não as circunstâncias.
(Parece banal, mas faz uma ENORME diferença entre a ficha cair sobre isso ou a ideia ficar lá, armazenada. Parece lição de liberalismo barato, mas não é.)

And man, oh, yes, the times… they are a-changing! :-)