Ainda em tempo…

Dylan cuspindo no jornalista da Time e uma das cenas que mais marcaram o longa de D. A. Pennebaker na minha memória. Don’t Look Back fechou o Forum Doc em BH esse ano e foi sem dúvida uma ótima escolha. 

Mais momentos de insônia embalados por goles de chá verde e pelas notas de Kings of Convenience. Acho que estou em meio a uma crise de abstinência de filmes não vistos, romances não lidos (e ia dizer, cervejas não tomadas em boa companhia, mas ao menos isso já vai se resolvendo, pouco a pouco). Estranhamente, nesses últimos dias sinto como se meu corpo e meu cérebro já não quisessem – fisiológica e involuntariamente – responder ao que os mando fazer. Mas sou eu que mando e ordeno que funcionem alucinadamente até o fim da semana. Recompensa: 24h ou mais de bônus para se desmontar numa cama fofinha, sem a menor culpa de ser nem de estar. De férias, oh, férias…

Mas, falando em filmes não vistos e livros não lidos, não quero falar da vontade de ver Inception (até hoje!), The Social Network, Harry Potter ou nada do Woody Allen. O que queria mesmo era deixar registrado o que vi, falar do fechamento do ForumDoc no último domingo de novembro, há duas semanas, numa Humberto Mauro deliciosamente lotada. Essas pequenas fugas… que seria da vida de um ser humano [quase] normal não fosse por elas!

Enfim. Bem resumidamente, na roda estavam The Woman’s Film (Louise Alaimo, Judy Smith e Ellen Sorren, EUA, 1971), Troublemakers (Robert Machover e Norman Fruchter, EUA, 1966) e, para encerrar, o ótimo Don’t Look Back (D. A. Pennebaker, EUA, 1967). Nos dois primeiros filmes, a história na versão dos vencidos (e vencidas) veio à baila, daquela forma crua e quase despudorada que essas histórias são quando quem conta são as pessoas que sabem que “lá embaixo as leis são diferentes”. As mulheres de Alaimo, Smith e Sorren viviam numa sociedade machista e queriam igualdade de direitos; os operários de Machover e Fruchter queriam empregos e salários que não precisassem complementar com esmolas. Queriam aquilo que os ricos tinham e eles não podiam ter, pressionados por mais que o american way of life – a necessidade de alimentar e vestir os próprios filhos. Esse discurso do “queremos o dinheiro que o governo nos rouba, vamos fazer a revolução” tem um tom forçado de “vamos tomar a infraestrutura para conseguir chegar à superestrutura” (e Marx não deixa ninguém em paz, mesmo. Ou não deixamos a ele em paz). E ambos se desenrolavam nos Estados Unidos numa época conturbada, pré (Troublemakers) e pós (The Woman’s Film)- Maio de 1968. Viviam na “transição” (se é que se pode chamar assim) entre Kennedy e Nixon, nos anos em que o país se afundou de cabeça na Guerra do Vietnã com Lyndon Johnson no poder.

Bom, enfim. Em ambos os filmes, a ação política não pode ser desvinculada da consciência social, seja ela em âmbito micro ou macrosocial. E está mais marcante no segundo filme, quando ações micropolíticas da NCUP (Newark Community Union Project) – cujas ações são o objeto principal de Troublemakers – já não mais funcionavam para resolver os problemas da comunidade de moradores onde estavam, e precisaram “se utilizar” da política, oficial e partidária, como uma tentativa de chegar onde queriam e ter suas reivindicações ouvidas. No primeiro filme, entretanto, os protestos e as reuniões de uma espécie de liga feminista eram as principais formas de as mulheres se manifestarem contra aquela opressão sufocante que viviam em casa e na sociedade que as cercavam. E em ambos os médias-metragens, mulheres, negros e pobres eram todos uma amálgama de ratos execrados por uma sociedade desigual e extremamente individualista (essa, no entanto, é uma realidade que transcende tempo e espaço. Basta olhar ao redor). Porém nem eles conseguiam se livrar do pensamento liberal profundamente arraigado na cultura americana. O objetivo comum era a felicidade individual de cada um. Não que isso seja ruim, não mesmo. Mas é preciso moderação, planejamento, educação. Não basta se preencher as condições estruturais da parte menos favorecida de uma sociedade para que ela perpetue os padrões, a filosofia e o modo de vida de quem nunca esteve no andar de baixo. O mundo simplesmente não tem espaço nem recursos para suportar isso. Mas, voltando aos filmes, ambos são um registro interessante de como a vida molda a política e, principalmente, vice-versa, em seus menores aspectos. Muito bom.

Já sobre o último filme, Don’t Look Back foi simplesmente delicioso. Também num mundo idílico pré-1968, Bob Dylan chega à terra dos Beatles fazendo barulho, muito barulho, em meio a um jogo de egos, assédio de fãs ensandecidas e sobrevalorização de palavras e atitudes. E foi isso que me chamou a atenção. Ser considerado gênio ou iluminado deve ser sufocante às vezes: absolutamente tudo o que Dylan dizia tinha que ter um significado, nada poderia ser totalmente desprovido de sentido. Palavras tomavam vezes de ações e eram o assunto principal em entrevistas. Qualquer coisa que ele dissesse em suas letras era tomado como um ato deliberadamente político. Mas enquanto isso, o jovem Dylan se sentia muito bem no seu papel de olimpiano rebelde, totalmente careless e acima daquilo tudo o que acontecia. Era ele mesmo e se divertia com isso. Tinha uma mente inquieta escondida atrás das olheiras profundas e, assim como seus amigos (como Joan Baez, que também aparece no filme), fazia a arte para se comunicar com o sentimento, e não tanto à razão. E fazia questão de deixar isso claro a quem perguntasse, mas tampouco se esquecia de que aquilo tudo era também um grande negócio. Era menos artista por isso?

Mas, entre negociações burocráticas, noitadas (nem tão frenéticas como se pode imaginar à primeira vista), um contraste entre preto e branco, público e privado, aberto e fechado, Don’t Look Back mostra um gênio folk cujo vício era apenas fumar compulsivamente: não cantava bêbado como Jim Morrison e nem tocava drogado como os Stones. Era quase inocente: fazia parte de um bando de artistas precoces que quase precisavam de babás para cuidar deles, estava descobrindo as dores e as delícias da fama e não se rotulava como um cantor de folk – e nem como qualquer outra coisa. E era um dos donos dos anos 60. Uma personalidade jovem, cheia de energia, com um mar de ideias e palavras sempre engatilhadas para disparar em qualquer situação que surgisse. Muito bom. Hilariante e genial também, diga-se de passagem. Exemplo: as últimas palavras de “Talkin’ World War III“.

Well, now time passed and now it seems
Everybody’s having them dreams
Everybody sees themselves
Walkin’ around with no one else
Half of the people can be part right all of the time
Some of the people can be all right part of the time
But all of the people can’t be all right all of the time
I think Abraham Lincoln said that
“I’ll let you be in my dreams if I can be in yours”
I said that 

Bom mesmo vai ser rechear as férias de mais momentos e relatos como esses, oh yes it will… :-)

Pra você

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
(C. D. A.)

A summertime tale

It was a quiet, warm night. It was so inviting – for a run near the pond, to dip their toes into the fresh water, to roll over the grass, to look at the sky and empty their minds. It’d been such a long time they hadn’t done it. They weren’t kids who delighted in milking cows on their vacations any longer, though. But the landscape was still the same, the pens they used to leap to poke horses and the trees they used to climb were, yet, unchanged. At the same time, these were just memories of a strawberry-perfumed past. Everything had changed. And even faster than they could notice. But still, attentively enough, their nostrils could recall the scents of lemon, passion fruit, daffodils and lavender they used to enjoy so much a few years before. It seemed, though, like a long-gone playful time had vanished from their lives, and now they had just slight traces of it, which they could still peer from their adulthood years.
But still, they ran at the pond, had their toes dipped in that cold, clear water, climbed trees and laughed. Yes, they laughed hard that night. Still panting, she sat down at the grass, then, laying on it, had her arms folded behind her neck. He did the same, siding her. The sky looked even wider with all those lights glimmering at a most beautiful blast.
“When you look at the sky, what is it that you see?” Then she smiled: “Besides the stars, I mean. Is that Ursa Major?”
After having gazed that wonderful view, he shut his eyes and said, “I see the shades, colors and bright of my dreams, I see a place I so much want to return to”.
“So you mean that”, she smiled, “that’s where you came from”. And went on, laughing: “Somehow, I’m not surprised”.
“I know you’re not, Mandy”, he grinned. “But I’m not talking of having been abducted by extraterrestrials, even if it might seem so”, he laughed.
“I know what you mean. We’re all stardust, really”, she smiled again.
“I mean, it’s a place I’ve never been to, but somehow I feel like it’s the only I really belong to. You know when you miss a place or a person that you’ve never seen before – or you haven’t seen yet?”
“I sure do. But there are so many places you haven’t been to. The world is wide, Ben. People and places are just waiting to be discovered”, she said. “This sense of belonging is just a matter of searching, lurking through keyholes and corners… and I’m sure one day you’ll find it. You should just observe and absorb with attention”
“I’ve been to more than half this globe, you know”, he sighed. “and every city, every corner I go, seems like a little piece of home, this grand, huge home we’re all in”. He stared at the sky again. “But somehow, I found out that feeling home is not the same as feeling as you belong”.
“I know. But I think you should take a ride to the other half”. Gazing the stars, she went back: “I’ve been to the half you haven’t”.
“Possibly you’re right. But how come you’ve been to the other half if you’ve been almost your whole life here, in this awesome and beautiful end of the world?”
“Cause I have this feeling, this impression, the thing that makes me sure…”
“Sure?”
“Sure that I know what belonging is”
“I’m pretty sure you do”
“But it’s not really connected to a place in specific. It has more to do with, and then you might agree with me, who you find out along the way. Places are good to help you sharpen your view, widen it if it’s still narrow, but it’s knowing people what really gives you the ground you can put your feet in and go ahead”.
“I bet I don’t know what you mean, then”, and that saddened his eyes.
“Ben, you can’t know it, you can just feel it”, she whispered.
“It takes time. From all things that can be felt, this is the one I want to know the most”.
“What do you mean?” she asked.
He quietened for a while. “It might be that I feel home here”
He stared into her eyes for a while, stood and tried to feign his uneasiness by walking through the meadow a bit. And, for a moment, anxiety rushed so hard he wished he weren’t there. Too many thoughts to put in order. He didn’t want to admit it, but it was about time he did so. For years he hadn’t had such a chance. But the fear of not knowing would just freeze him. Their long lasting friendship could come to a halt if he even muttered the wrong words. “What a slippery track to be in”, he thought. But he was there and wouldn’t slip this time. The problem is he just didn’t have the guts not to.
Coming back, he sat by her again and said, “So it might be that I feel home here”
“So here your home might be. It’s a place that grounds a good deal of your memories, ain’t it? Just like mine”
“Yeah, very possibly. But – ”
She was eager to listen to the rest. But couldn’t see his hands were cold and his hair was already wet, not with the dew, but with sweat.
“You… do you want to go for a walk and eat something?” he gasped. “We could still pick some berries and apples while we don’t get into the house and do some pasta ourselves. I think the rest of the guys might join us”.
She felt disappointed. “You’re really afraid of what you think you’re looking for, aren’t you? Is that all ‘belonging’ that makes you feel that… nervous?”, she poked.
He froze. She gazed into his eyes once more. He wanted to run, but he couldn’t move. At all. Then they did what was in his mind since they met for the last time. As she got closer, they kissed what seemed to be a long-awaited kiss with all the flavors and fragrances of those long-gone colorful years they’d had.“Thanks for saving the night”, he finally uttered.
In her perplexity, she faked total control of her senses, holding back her uneasiness. “I didn’t. The thing is nowadays things are quite different from what they used to be. No time for long summaries in books anymore, my friend. Shyness is totally overrated! And maybe so is romance”.
He opened his eyes wide in return. “And maybe so is love, don’t you think?”
She wondered for a while. Then she eyed the sky again, and, faking thoughtfulness, she laughed: “Let’s go pick some mint for the pasta? They’re waiting for us!”