Aleatórias

Saudades de postar, aquela desculpa de sempre da irremediável falta de tempo. Mas é isso a boa coisa de se ter um espaço vazio a ser preenchido: ele não vai descansar até que você o encha com letras aleatórias e algum sentido. Então, aí vai uma tentativa de fazê-lo com assuntos que eu não poderia deixar de postar:


Aleatória #1

Outro dia, folheando uma entrevista tão linda quanto instigante com Manoel Morgado, que tem nome de português mas é o brasileiro mais velho a subir o Everest, algumas ideias e inquietudes começaram a se entremear nos fios encaracolados do meu pensamento solto. Solitude, auto-conhecimento e o conhecimento em si fazem a vida de uma pessoa realmente mais rica e com muito mais significado. É uma evolução de espírito, praticamente. Mas como o conhecimento se fixa na memória? Como fazê-lo durar e não se perder no mar de informação em que estamos todos imersos? Vem então, também à baila, aquela ideia rousseauniana dos sentimentos que precedem a razão, as sensações como fio condutor do conhecimento. E acho que mesmo não tendo folheado o Emílio para discutir o assunto com mais propriedade, a ideia em si faz certo sentido. Podemos esbarrar em alguém em meio a agitação do cotidiano. Ainda que já tenhamos conversado em uma festa ou tendo sido apresentados por um amigo em comum, ou outra situação qualquer, o nome daquela pessoa pode nos escapar da mente e não chegar à língua. Mas a diferença entre a vontade de se sentar numa mesa de um café ou apenas dizer um até logo está exatamente na sensação que lembramos ter aquela pessoa nos provocado no primeiro contato, ainda que o nível etílico não nos deixe lembrar de nada do que foi dito. Isso não muda totalmente a nossa disposição em escutar com interesse o que tal pessoa tem a dizer ou simplesmente descartar uma possibilidade de contato? 

E me lembrei ainda de um exemplo dado pelo Yurij Castelfranchi (um professor desses de quem você sabe que vai se lembrar pelo resto da vida) numa reunião de projeto de pesquisa, quando surgiu um assunto de financiamento público de museus e da função deles na sociedade. Parafraseando-o sob licença poética: 

“se o governo fosse pensar apenas em retorno financeiro, deveria fechar todos os museus, porque existem muitas outras coisas que podem ser mais rentáveis e menos dispendiosas. E se fossem medir a eficácia de um museu pelo quanto de informação uma pessoa conseguiu absorver numa visita, fail. O papel dos museus é instigar a curiosidade nas pessoas, fazer brotar da experiência delas sensações, porque na verdade são elas que podem fazer alguma diferença na lembrança futura de alguém. Quantos cientistas não decidiram seguir carreira por se lembrar da sensação que tiveram quando crianças ao arregalar os olhos em curiosidade diante de uma peça arqueológica num museu?”


Então tive a impressão (ou seria uma sensação?) de que o conhecimento é algo mais sinestésico que apenas resultado de operações epistemológicas e cerebrais complicadas. E tudo pareceu mais simples. Uma das primeiras perguntas da entrevista a Morgado, logo no início do post, não foi justamente “qual a sensação no cume?”. E o vasto acúmulo de experiências que esse afortunado gaúcho tem da vida, lugares e pessoas, não é exatamente resultado de tornar uma prática a sua paixão de viajar?

Aleatória #2

Posto isso, não poderia deixar de registrar os acontecimentos que mais fizeram o mês valer a pena, enquanto ainda é setembro: é sempre bom ter aquela sensação de missão cumprida, objetivo alcançado, aquela alegria genuína, sem nada de exibição, excessos ou forçação de barra. Mas é bom aproveitar esses momentos (que deveriam ser mais frequentes!) de partos alegres nesse cotidiano conturbado de uma jovem vida adulta. Que venham mais desses num futuro próximo!

Aleatória #3

– A trilha sonora dos últimos dois dias (e os amigos de bons ouvidos que fazem a vida muito mais gostosa).
– Ainda na categoria de trilhas sonoras: eu e minhas saudades das notas noturnas do Porto
– Na categoria ‘imagens’, a sensação de ter tirado um atraso enorme, que agora vira sugestão: uma dose de expressionismo alemão com o Golem, de 1920. Porque saber passar o tempo com qualidade é uma arte. Vai-se aprendendo aos poucos, como me aconteceu dessa vez. 

Aleatória #4

Ainda aquela maravilhosa sensação de que você ainda consegue se surpreender depois de tanto tempo de convívio consigo mesmo e depois de tentativas exaustivas de entender os quandos e os porquês. É sempre cedo demais para se achar que existem espaços e ideias fechados na vida, ainda mais quando se é tão jovem. E a felicidade de se descobrir isso é justamente essa: é preciso ultrapassar essas delimitações rígidas para se ter a noção de que elas na verdade não existem. Enquanto se está confinado num espaço que achamos ser o nosso universo, com os limites que fixamos para nós mesmos, não conseguimos enxergar que existe muito mais espaço para além disso. 

E é só caminhando até a borda e retirando as estacas de demarcação que nós mesmos afixamos é que se torna possível enxergar a pequenez da nossa visão e nos aventurar por outros lugares. 

Na vida não existem mapas com delimitações geopolíticas bem definidas – sempre podemos entrecortar as bordas entre um e outro espaço, aprender e nos surpreender muito com isso. O importante é ter a cabeça aberta e a disposição de se aventurar para além dos próprios limites, transcender expectativas e lugares-comuns pré-definidos. Nada melhor que uma mudança no eixo das coisas, uma inversão e uma quebra de paradigmas que você não esperava quebrar (e nem sabia que eram paradigmas, na verdade). A flexibilidade do olhar (e do sentir) é, como toda arte, algo que se exercita e se aprende com tempo e paciência. E é sempre importante dar tempo ao tempo. Esse talvez seja um exercício ainda mais difícil do que transcender espaços. Deve ser o teste para se saber se chegou lá, para então, finalmente, quando tempo e espaço se sincronizarem, a descoberta ser completa. 

E de tudo, mesmo se essas divagações forem apenas um monte de impressões erradas sobre ideias mais equivocadas ainda, ao menos a sensação que elas provocam já serve para causar algum tipo de conhecimento do assunto – e de si mesmo, por que não?
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Pérolas de setembro

E pérolas (maravilha!) no melhor sentido da coisa: ambas já vindo sendo trabalhadas há algum tempo, e finalmente saíram da concha. A primeira delas foi a apresentação de um trabalho no Intercom no primeiro fim de semana do mês. Foi minha estreia na produção acadêmica e fiquei – claro, além de super contente por finalmente apresentar alguma coisa depois de participar de milhões de congressos – com a impressão de que a coisa vai bem a tempo e em bom caminho: os presentes me pareceram interessados no tema, houve repercussão e bons comentários. Foi uma estreia bem-sucedida e esperada há algum tempo. Claro que em sessões do Intercom Junior se pega relativamente mais leve nas críticas, exatamente por causa do caráter ‘junior’ da coisa, mas poder mostrar um pouco do trabalho de um ano (transpus minha monografia num artigo) foi um episódio extremamente feliz e estimulante. E é assim que passo a passo, o futuro vai sendo construído e chegando mais perto. :-)

A outra pérola, tão estimulante quanto essa (mais ainda, eu diria) foi enfim ver publicadas as entrevistas da Educar para Crescer com os candidatos ao governo do Estado. Isso definitivamente é algo que eu não podia deixar de registrar e nem comentar: é tão, mas tão gratificante olhar para trás e ver que se conseguiu levar a cabo uma missão quase impossível! Entre seguir agenda lotada de políticos, noites mal-dormidas, percalços no caminho, milhões de telefonemas, empurra-empurra de coletivas, entrevistas frustradas, muitas incertezas, aprendizado sobre o que fazer e o que não fazer, o apoio valioso da coordenação do projeto, contatos feitos e finalmente o alívio que só uma exclusiva finalmente gravada pode dar, foi um longo caminho. Com o fôlego regado a adrenalina e assentado em muita persistência, finalmente senti que tinha passado no teste. Ele  teve ainda um gosto especial porque tive a sorte de poder trabalhar cobrindo um tema em que realmente acredito. E sem dúvida, compartilhar a importância da Educação na política com as pessoas foi um estímulo a mais para não deixar a peteca cair. E uma pessoa sabe o valor que essas coisas têm porque nunca se esquece o primeiro trabalho como profissional graduado. E posso dizer que a minha estreia no mundo do Jornalismo me deu mais vontade de continuar trilhando por esse caminho… let’s see what comes next!

E algumas notas musicais nem tão soltas assim para embalar as palavras que as precedem.

:-)